Salam Aleik!
Quando o importante é o “senta que lá vem a história” já é possível saber o que se esperar de uma adaptação cinematográfica de um livro. É o caso de O Caçador de Pipas, assinado pelo diretor Marc Foster, aquele de A Passagem e A Última Ceia. Do seu original, livro de Khaled Hosseini, carrega o enredo. A história foi transportada das páginas para a tela, sofrendo recortes e adaptações necessárias. Neste sentido, o filme cumpre bem o seu papel: a trama continuou rocambolesca, com ares de thriller e suspense. No entanto, em comparação ao livro, o filme é frio, não aproxima o espectador dos personagens, não vivemos seus dramas, culpas e choques. Apenas assistimos, distantes. Uma pena, pois o livro faz o contrário, o que pode decepcionar um pouco os leitores do best-seller.

Em compensação, Foster tem seus bons méritos. A seqüência do campeonato de pipas, além de divertida e empolgante é o ponto mais alto, tecnicamente. Plasticidade. Cores e movimento, pareceram saltar do livro e criar vida na tela. É praticamente impossível não se emocionar com a cena e lembrar de algumas empinadas da infância. A música, assinada por Alberto Iglesias (o mesmo de tantos filmes de Almodóvar), surge forte em momentos como esse, embora a mais rica melodicamente seja aquela da abertura do filme. Além disso, a preparação de atores não deixa nada a desejar. Destaco a atuação de Homayoun Ershadi, pai de Amir e dos encantadores atores-mirins, Zekiria Ebrahimi e Ahmad Khan Mahmoodzada, que com atuações brilhantes, transmitem para seus personagens a inocência, o medo e a crueldade infantil.
Hosseini nos faz viver em uma “terra sem lei”, ao mesmo tempo, dominada por tantas delas, um Afeganistão que passou pelas mãos de soviéticos e talebãs. Já o filme faz um vôo rasante por todas estas questões sócio-políticas. Interessante lembrar que o livro foi lançado em 2003, dois anos após os atentados de 11 de setembro e da invasão estado-unidense ao país. Pela amizade de Amir e Hassan, fala-se de distância, diferenças de valores, crenças, superioridade de classes sociais e etnias. A discussão ultrapassou as obras. Enquanto era esperado com ânsia pelos fãs daqui, o filme foi censurado no Afeganistão, por insultar aspectos da cultura local e o elenco infantil foi obrigado a se refugiar no Paquistão.
Quem não correu os olhos pelo livro não vai achar o filme ruim, mas é bom saber que o diretor fez uma opção (consciente ou não, o resultado foi esse). Na dúvida, optou pelo conservadorismo estético, em prol da narrativa. Preferiu adaptar o livro – não criar em cima dele. Nem preciso dizer por que tentativas semelhantes a esta são, em geral, limitadas. É tudo uma questão de linguagem: falar com palavras ou falar com imagens.
Que gravura bonita! Não vi o filme, talvez por ficar com o pé atrás ao descobrir que um diretor europeu iria dirigir uma história sobre afegãos. E cinema narrativo também não me atrai muito. Bom, mas não se pode ter tanto preconceito assim, afinal podemos sempre nos surpreender. Belo texto.