O Suspeito é um filme que vai sair das salas tão silenciosamente quanto entrou. Com cara de filme-hollywood, conta com boas atuações de Meryl Streep e Reese Whiterspoon, não possui sacadas estéticas, trabalha com a grande escala das mega-produções e com a câmera previsível, que não impedem a dissussão sobre uma temática inquietante. E é por isso que ele vale a pena.
Um egípcio, radicado nos Estados Unidos há mais de 20 anos, torna-se o principal suspeito de participar de um grupo terrorista. Ele é pego pelo governo estado-unidense (detalhe: fora deste terrritório, já que não existe tortura nos Estados Unidos, como afirma a personagem de Meryl Streep) e forçado a falar. Daí, seguem-se torturas, exclusão de registros, numa ficção denúncia que mostra o rascunho do que órgãos de inteligência são capazes. Enquanto isso, sua mulher tenta articular-se com políticos para descobrir seu paradeiro. Ao mesmo tempo, conhecemos a impossibilidade de concretização do amor entre dois jovens, obviamente relacionados a prisão do egípcio. O diretor soube explorar bem a opção narrativa de intercalar duas histórias, em tempos iguais e espaços diferentes que convergem no final, enriquecendo a análise do tema por mais de um ponto de vista.
Jake Gyllenhall, em sua ótima e natural atuação, faz o papel de um atormentado agente da CIA que, entre um copo e outro, decide agir, em um misto de alívio de culpa e de contrariedade às estruturas do intrincado sistema de controle do governo. A proposta do filme, muito mais do que discutir sobre o preconceito e o medo que surgiram após o 11 de setembro nos EUA, é colocar em questão o poder ilimitado do Estado.
O Estado de Sítio foi o mecanismo criado pela Assembléia Constituinte Francesa para a suspensão de direitos e leis. O que observamos na política contemporânea (e é apresentado no filme) é a suposta existência de um Estado de Direito que reconhece constitucionalmente direitos sociais, políticos e civis, mas que também permite, não só a eliminação destas garantias, como a utilização da violência. Este é o Estado de Exceção. Em Teses sobre a história, Walter Benjamin discute como este regime de exceção se tornou regra, em especial no Estado de Direito burguês. Esta é a idéia que percorre o filósofo italiano Giorgio Agamben com o livro que escreveu a partir das atitudes de combate ao terrorismo nos Estados Unidos de 2001 (vale a pena ler!), em especial com o Patriotic Act, ato que oficializa tudo o que vemos retratado no filme de Gavin Hood. O Estado se apodera da norma e tem a garantia de se utilizar da força, da violência para fazer valer sua vontade. Tudo em nome da segurança nacional- claro.
O filme trata do poder, de jogos de forças políticas, preconceitos e questiona o poder estatal, a atual política de segurança e real existência dos direitos civis. O filme pode até ser fraco, mas merece ser visto pelo fato de levantar esta discussão.
Para se aprofundar no tema, uma opção interessante e densa é o documentário Gitmo- the new rules of war (2005), de Erik Gandini e Tarik Saleh, sobre a prisão na base de Guantánamo. Outro filme é o Caminho para Guantánamo (2005), baseado em fatos reais, conta como jovens ingleses de descendência paquistanesa são presos e acabam na base naval americana em Cuba. Já mais superficial, porém não ruim, é o nacional Tropa de Elite e a criação do BOPE como a institucionalização do Estado de Exceção.
Não vi o filme, mas me lembra um pouco cenas recorrentes no seriado 24 Horas. Basicamente uma série de ação, personagens bonzinhos e mauzinhos apelam para a tortura, e o enredo sempre dá a entender que é justificado. “Se não fizermos isso, milhões de cidadãos vão morrer”. O problema é que o estilo Chuck Norris do Jack Bauer faz a gente simpatizar com ele. Parece o que aconteceu com o Capitão Nascimento. O diretor não o defende, até reforça que ele tem sérios problemas na vida familiar, mas ele sai como herói para o público. Se bem que em 24 Horas não acho os produtores e diretores tão inocentes…
Creio que essa deve ser mais fácil pra eu conseguir assistir hehehe… Valeu a dica!
(PS.: culpo o Wii por eu ter ficado muito tempo sem comentar)
assisti “o suspeito”. Jake Gyllenhall prova, mais uma vez, que é um dos melhores atores da novíssima geração de Holliwood. Meryl Streep mais uma vez comprova ser a melhor atriz de todos os tempos do cinema estadunidense.
quanto ao roteiro, mesmo de forma simples, o filme consegue apresentar os riscos oferecidos pela política anti-terrorismo a qualquer preço, promovida pelos EUA e seguida por países aliados. A prisão de um inocente, apenas por ser oriental, de origem muçulmana, contribui com a discussão sobre os excessos cometidos por Bush e seu Estado.
Guantánamo permanece como exemplo de campo de concentração moderno, 50 anos após o fim da II Guerra Mundial – e sem a devida repulsa e interesse da comunidade mundial, a exemplo do que ocorreu aos judeus e outros grupos que sofreram as barbáries nazistas.
Os Estados imperialistas continuam com suas ações violentas para justificar sua pax. Por outro lado, o terrorismo não tendo fronteiras, nem nacionalidade definida, expõe o povo oriental – sobretudo os muçulmanos – à condição de perseguidos (a exemplo dos judeus na Alemanha nazista). Sou uma pessoa morena, neta de portugueses e italianos (calabreses). Passaria claramente por alguém de origem moura (lembrando que os dois países citados foram SIM colonizados por mouros). Há muitos anos não viajo à Europa ou EUA, e nem pretendo retornar – considerando os riscos que corro.
Retornando ao filme, vale a pena assistir os extras – DVD. Há um documentário que inspirou o personagem egípcio do filme. Trata-se de um alemão de origem libanesa (acho) que passou anos preso e torturado. Também outro jovem afegão que ainda permanece preso em Guantánamo, sem qualquer prova de seu envolvimento com a Al Qaeda.
Espero apenas que este ódio, esta xenofobia – que alimenta-se com as decisões dos governos europeus quanto às medidas punitivas aos imigrantes ilegais – não torne-se uma catástrofe mundial como o foi a Segunda Guerra ou outros exemplos terríveis ao longo da história.
Por enquanto, o que me resta é reproduzir os muçulmanos…
Salam aleikum