Há quem considere que a tradução do título do novo filme de Joel e Ethan Coen seja problemática. Em inglês, não há espaços para velhos. Na nossa língua, os “velhos” confundiram-se com os “fracos”. A ambiguidade enriquece.
De início uma paisagem sem plantas, com raros animais, seca. Diferente do deserto de Antonioni, em Passageiro- Profissão repórter, as cores desta são pálidas, não contrastam com os personagens, tão áridos quanto a vegetação local. A falta de diálogos e de trilha sonora contribuem para a sensação de isolamento e solidão. Finalmente, é o vermelho púrpura sanguíneo derramado na terra o indicador de vida. E de morte. O enredo, assim como a paisagem, seria típico dos westerns tradicionais. A não ser por alguns aspectos muito relevantes e que fazem o filme ser o que ele é.

A perseguição que envolve os personagens em torno da mala de dinheiro encaminha o conflito do interior para o núcleo urbano (que não raras vezes nos remete às cidades fantasmas dos faroestes antigos). A transição em direção as cidades parece muito pertinente.
Focalizemos agora os personagens que dão vida aos cenários. O xerife (atuação fora de série de Tommy Lee Jones), narrador que abre e conclui o filme é um homem mais velho, cujos valores são diferentes. Ele é a polícia, mas em nenhum momento o vemos empunhando uma arma. Já o homem em fuga, que encontra a mala, tenta defender aquilo que considera sua propriedade, a mala, a família e em última instância, sua própria vida. O dinheiro, logo percebemos, torna-se algo menor com o decorrer do filme. Finalmente, o personagem de Javier Bardem (aplausos para o ator). Seria ele um serial killer, um psicótico qualquer que tenha nascido com o gene da maldade? Creio que isso seria muita ingenuidade para um produto coeniano.
É um homem jovem, às vezes irracional, outras vezes dominado por uma razão e frieza suficientes para fazer em si mesmo uma micro cirurgia ou para criar seus próprios instrumentos para matar. Ele é medonho, tem um olhar alucinado, cabelo indescritível, é cruel. A atuação, considerada caricata poderia ser intencional.
Talvez seja ele a personificação da insanidade da violência desmedida da sociedade contemporânea. Uma violência tão personificada no nosso dia- a- dia, que nos esquecemos de sua origem e a vemos tal qual uma entidade. Interessante pensar no jogo proposto pelo personagem. Agora, vida e morte são definidas em um cara ou coroa cuja decisão é muito menos do acaso e muito mais da posição de quem joga. O limite da probabilidade não mais existe. Além de tudo, é impossível não se assustar durante o filme. A perseguição gera ansiedade, claustrofobia. O público sente-se encurralado. E muito disso é causado pelo medo. Nem é preciso discorrer sobre a relação entre medo e o tema até agora discutido.
A violência é fruto de uma história, de um contexto, de relações sociais. Mesmo assim, há momentos em que nos parece inexplicável, fora de controle e sem solução. Nos sentimos fracos diante dela, e porque não? Basta lembrar de casos de ataques em universidades e escolas norte americanas, nos cinemas e shoppings de São Paulo, nos seqüestros sem resgate. Ou nas mortes nos faróis da cidade, em que o assaltado recebe um tiro aparentemente sem motivo.
Onde os Fracos Não Tem Vez faz uma análise da violência como ela é hoje. E do medo irracional difundido. A fotografia fala muito mais do que mostra, os diálogos são densos e difíceis de absorver, e o tema é muito mais universal do que uma simples brincadeira de gato e rato no interior dos Estados Unidos.
Não creio que esta seja a leitura mais acertada, ou se existe uma visão correta e outra errada. Proponho aqui apenas refletir, por uma outra lente, sobre este filme e este personagem intrigante.
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O final de semana merece um comentário. Tropa de Elite, de José Padilha, venceu o Festival de Berlim, feito aqui conseguido anteriormente apenas por Central do Brasil, de Walter Salles. Apesar de ter militado durante um ano em favor do filme e defendendo-o com unhas e dentes, não sei merecia tão alto prêmio. Mas quem sou eu para duvidar de Costa Gravas e companhia…De qualquer forma, meus parabéns para a cinematografia brasileira. No entanto, gostaria de enfatizar minha felicidade com a visibilidade de Mutum, de Sandra Kogut, no festival. Ele merece mais do que uma nota de rodapé, logo, aguardem.
O final de semana merece um comentário. Tropa de Elite, de José Padilha, venceu o Festival de Berlim, feito aqui conseguido anteriormente apenas por Central do Brasil, de Walter Salles. Apesar de ter militado durante um ano em favor do filme e defendendo-o com unhas e dentes, não sei merecia tão alto prêmio. Mas quem sou eu para duvidar de Costa Gravas e companhia…De qualquer forma, meus parabéns para a cinematografia brasileira. No entanto, gostaria de enfatizar minha felicidade com a visibilidade de Mutum, de Sandra Kogut, no festival. Ele merece mais do que uma nota de rodapé, logo, aguardem.
É interessante ver como o xerife está sempre deslocado no filme, ele é um personagem do passado. A violência que ele combatia tem agora outro caráter. A moral do faroeste acabou. Não por acaso o mocinho, Llewelyn Moss, morre.
Exatamente. Não à toa os “velhos”não tem mais lugar. Tudo antigo perde lugar: a moral, os valores, etc…É o império da novidade. A transição do meio do deserto para a cidade é elementar para demonstrar esta trasformação. Acho o personagem do xerife ótimo, por que apesar de ser um “personagem do passado”, muito do que ele diz é perfeitamete atual!
=)