“E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma idéia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume – quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: -’Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!’ “

Semana pós-Festival de Berlim com premiações brasileiras. O interessante Tropa de Elite, de José Padilha, está na ponta da língua e a um clique de todos. Sendo assim, nada melhor do que abrir espaço, com tapete vermelho, para outro produto da nossa cinematografia, assinado por Sandra Kogut. Mutum, que estreou nos cinemas no final do ano passado, é baseado na obra Campo Geral, de Guimarães Rosa e conta a história de Tiago, um menino que vive em uma cidade de interior com a família.
O filme, que participou do Festival do Rio, de Toronto, Cannes e outros, não possui cenas em estúdio e as atuações são naturalistas. Segundo a própria diretora, a maioria das pessoas que atua no filme não são profissionais e nunca foram ao cinema. Os meninos, Tiago (Tiago da Silva Mariz) e Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso), foram selecionados depois de uma longa busca, entre crianças das escolas do norte de Minas. A preparação de atores conseguiu criar entre eles uma atmosfera fraterna e harmoniosa e construir um núcleo familiar que muito se aproxima do documental. Preferiram inclusive manter o nome verdadeiro das crianças nos personagens. Afinal, o filme é dominado por eles e o restante da família fica (quase) em segundo plano. Impossível não simpatizar com os pequenos e se encantar com a história de Tiago, seus pensamentos não ditos verbalmente, mas descritos pelo silêncio e, em especial, por seus olhares introjetados, perdidos e curiosos. O cuidado com esta expressividade é essencial para tratar da relação do universo infantil com o meio, com a natureza e os conflitos da família, com as perdas e aprendizados. Cada olhar triste, cada lágrima e cada sorriso trocado entre eles nos demonstra o amadurecimento pessoal e a invasão em uma outra camada de observação do mundo. Trata-se de um filme sobre o indivíduo, sensível e não piegas.
A câmera passeia por todo o espaço e pelos personagens. Ela segue-os já no primeiro plano do filme, como se nós espectadores estivesssemos entrando naquela atmosfera, acompanhando os passos do cavalo que passeia pelos campos até chegar na casa. Não há trilha sonora e diálogos contínuos e dispensáveis. Tudo é calculado para produzir o efeito de incomunicabilidade. A fotografia dá conta de maravilhosos planos gerais e enfatiza os primeiros planos como se fossem o olhar de Tiago. E aí surgem os detalhes. Foco no chão seco, de pedra e árido, nas mãos das crianças ou nas bacias e panos utilizados na cozinha.
Todo este mundo saltou das páginas de Guimarães e foi recriado na tela. Com toda a poesia do original. Talvez o projeto tenha dado certo justamente pela coragem da diretora de não se comprometer a transformar palavras em imagens, de ser livre para criar a sua leitura do universo roseano. O filme circulou na Mostra de Tiradentes deste ano e manteve sua platéia vidrada, mesmo com chuva, na praça do cinema.
O texto de Guimarães é marcante por si só. Quem ainda não leu, também está convidado a ver o resultado deste trabalho. E quem já teve oportunidade de fazer uma leitura acurada de Campo Geral, como eu, com um querido professor de literatura no colegial, que sensivelmente fez uma sala inteira se emocionar, agora está convidado a ser espectador deste filme e a usar as lentes de Tiago e Miguilim.
Você a Cyntia são duas grandes professoras de como se deve usar um blog…Sim, pois não adianta nada escrever todos os dias sem nenhum conteúdo…o que vale é postar quando temos o que falar…e vocês duas são assim!
A cada post nos abre espaço para reflexão e para um olhar diferente, porém totalmente sincero por parte das autoras. Espero também seguir por este caminho.
Parabéns pelo texto e vou atrás desse livro do Guimarães que ainda não conheço.
Beijos
Livia