
Hoje perdi o primeiro ônibus do dia.
O culpado? Paulo Emílio Salles Gomes e o seu texto “Erotismo e humanismo”, de 1958. De modo geral, o texto discute a relação do erotismo e da estética no cinema. Para ele, “o cinema sempre procurou exprimir o prazer físico ligado ao amor e é prvável que, refletindo as variações do comportamento social em torno dessa questão durante a primeira metade do século, possa ser considerado como um dos testemunhos do anseio humano por concepções morais mais adaptadas à vida moderna”.Toda a expressão erótica no cinema começou com o beijo de John Rice e Mary Irwin, em The Kiss, que lá em meados de 1896 foi taxado de indecente e vulgar. Futuramente, o beijo seria também a causa de censura de filmes em certos países. Daí para frente, o cuidado moral dos diretores definiu a intensidade e calor destas cenas românticas. No início, os beijos eram frios, o casal era filmado à distância e quase sem proximidade. As bocas se encostaram, mas permaneceram fechadas, para aos poucos ficarem entreabertas e imóveis. Numa das mais belas passagens, Paulo Emílio conta que “a cabeça da mulher derrubada para trás foi uma inovação dinamarquesa que causou sensação”, inaugurando o movimento no beijo.
Nas origens do cinema, a maquiagem foi produzida para diminuir a boca dos atores, afinal, não havia diálogos e a expressividade refletia-se nos olhares e no corpo. Com o beijo, esta técnica passou a enfatizar os lábios, com brilhos e batons, que faziam contraste no preto-e-branco oferecido pela película. Agora a estética e técnica trabalhavam juntas para produzir o erótico. E assim, o beijo deixou de ser suficiente e novas relações do corpo precisaram ser construídas e desenvolvidas.
Sorte a nossa, que podemos apreciar diversas expressões do erótico pelas mãos e olhos de tantos diretores, como Fellini, em La Dolce Vita, da foto lá de cima. Impossível não lembrar da última seqüência de Cinema Paradiso, do diretor Giuseppe Tornatore, com a maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone.
Paulo Emílio não para por aí. Desenvolve toda a relação da moralidade, do pecado e da virtude num belo artigo, que termina invocando a frase de André Malraux, escritor estudioso francês: “Trata-se de integrar o erotismo na vida sem que perca a força que devia ao pecado”. O texto na íntegra está no livro Crítica de Cinema no Suplemento Literário, volume 1, Paz e Terra.
preciso ver o filme da dona aí de cima…
e paulo emilio é bom né? quando me interessava mais por cinema lia muito do senhor aí…
bjo.
Camila, muito bons os seus textos. Você tem feito pesquisas e reflexões muito interessantes. Parabéns!
Cá , tem um filme da decada de 50 com o ator Burt Lancaster e uma atriz cujo nome não me recordo , em que ambos protagonizam uma sequencia de beijos, que se tornou marco no cinema por ter sido provavelmente o primeiro beijo erótico no cinema. Pena não me lembrar sequer o nome do filme.
Cá , tem um filme da decada de 50 , com o ator Burt Lancaster e uma atriz , cujo nome nome não me recordo, que se tornou famoso pelos beijos trocados numa praia . Foi provavelmente a primeira sequencia de beijos eróticos no cinema. Pena não me lembrar do nome do filme.
Acho que o filme ao qual você faz referência é o A um Passo da Eternidade, de 1953, com a Deborah Kerr e o Burt Lancaster. Acertei? Confesso que ainda não vi o filme, apesar de ter referências.