
Naquele sábado, entrei no cinema com a certeza de que veria um bom filme. O dia era propício e eu acabara de roubar um pouco de um saboroso chocolate quente da xícara companheira. A sala ficou escura e a projeção começou me dando um tapa na cara. Aquele não seria um filme comum. O letreiro, que fazia uma brincadeira (i’m not here) com o nome do filme, deu a dica. E então sou apresentada a um músico prodígio do Blues, um menino negro com 11 anos de idade; um poeta, um tanto surrealista; um artista de cinema em crise familiar; um Billy The Kid lutando contra a destruição de uma cidade localizada em um vale; o cantor folk que se converte e vira pastor e um cantor de rock.
Uma biografia, pensava eu durante o filme. Isso é um engano, ou no mínimo uma injustiça. Por mais que todas as histórias ali contadas se baseassem na vida de uma pessoa, havia mais ali do que uma individualidade. Eles poderiam ser qualquer um de nós, poderiam ser eu mesma. Afinal, quem não é multifacetado, metamorfoseado a cada segundo que passa?
Percebi que esta era apenas uma das formas universais que este filme assumiria. Durante a exibição, pensava qual seria o papel do artista. Fazer o que a sociedade quer ver e ouvir, ou seria ao contrário? O artista tem liberdade ou se limita aos limites impostos? Em que medida é possível não ser absorvido pelo sistema? Quando começava a me perder nos pensamentos propostos pelo filme, a estética vinha arrebatando a minha atenção. Uma correnteza de estímulos. Utopia e realidade. Ficção e documental. Preto e branco. Vermelho, azul, amarelo. Mistura de cores com a ausência delas. Edição fragmentada, imagem, tempo, sons agradáveis e estridentes. E referências, além das pequenas doses de elementos nonsense. Personalidades conflitantes, ao mesmo tempo, complementares. Forma e conteúdo em uma convergência milimetricamente perfeita.
No meio do filme, me sentia plenamente consciente de dizer “não quero que ele acabe”. Mas acabou. E os créditos subiam, enquanto me vinha uma forte e emocionada onda de felicidade e prazer, que pude compartilhar longamente com meu companheiro, dono daquela xícara. Naquele sabádo, vi muito mais do que um bom filme.
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Deixe o conservadorismo em casa. Vá ao cinema com a cabeça aberta, num dia em que não esteja buscando linearidade e conforto mental. Christian Bale, Heath Ledger, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Ben Whishaw e Cate Blanchett fazem o papel de Bob Dylan em interpretações fantásticas que, assim como o próprio Dylan, fogem da nossa compreenssão (Cate Blanchett fica quase irreconhecível e Richard Gere está em seu melhor papel, para comentar apenas duas das atuações). I’m Not There (veja o link para o trailer), obra-prima do diretor Todd Haynes, vai deixar marcas…
Bom texto!
Cá gostei do filme , mas não com sua empolgação e, confesso, não com seu entendimento. Não entendi o personagem do Richard Gere, pq nunca soube dessa passagem na vida do Bob Dilan. Seus comentáarios são de profisional. Parabéns. Beijos, tia Edna
Se o filme é bom, não sei. Não vi. O texto é ótimo. Vou ver. Se não for, será um engano ou, no mínimo, uma injustiça com a Camila. Que se mostra madura, inteira e pronta!!! Não queria que terminasse – o texto, mas terminou e deixou um sentimento de forte e emocionada onda de felicidade. Prazer por vc!!! Bjs