Um cristal no sol- reflexos, brilhos e cores de Kar-Wai
Maio 7, 2008 de camilafink

Para quem não conhece Wong Kar-Wai, Um Beijo Roubado, será uma boa surpresa. Para quem já está dentro de sua obra, a sensação talvez não seja muito diferente das anteriores. O enredo é relativamente simples, mas só relativamente, afinal fala do amor, do amor como algo maior do que uma relação-casal. E assim, somos apresentados a Elisabeth, Norah Jones, na sua versão atriz, que tem uma desilusão amorosa e entra no comum ciclo de solidão e ausência que todos nós passamos. Para retomar a vida sai em uma viagem pelos Estados Unidos. Não espere um road-movie, pois há muito pouco de road neste filme, talvez porque aqui o que importa são as paradas e não a estrada, alucinadamente acelerada em alguns pequenos trechos. Nestas paradas é que vamos conhecer a relação da moça com Jeremy (Jude Law), dono do café-bar, com outros conhecidos e, principalmente, dela com ela mesma.
Alguns dizem que o filme é um tanto irregular. Talvez porque a vida seja assim. No primeiro momento, o filme se passa dentro do café-bar de Jeremy, com conversas, bifes e muitas tortas de blueberry. E porque não? Afinal, Elisabeth estava também sem rumo e precisava desacelerar. Enquanto ela busca um caminho, nós espectadores nos encantamos com os simbolismos e diálogos entre aqueles dois estranhos e amigos. E com as escolhas de Kar-Wai.
Uma das melhores passagens do filme concentra-se em Memphis, na história de Travis, policial durante o dia e um amante amargurado à noite. Ele sofre, sente dor e amor. Elisabeth o conhece aos poucos, assim como nós, que simpatizamos com os sentimentos do homem apaixonado e seus copos de bebida. Aliás, muito dele é desconstruído - construído para nós- no diálogo de Raichel Weisz e Elisabeth, já no fim da passagem, com simplicidade e densidade. Em seguida conhecemos Las Vegas e uma Natalie Portman viciada em jogos, sua maneira golpista, metirosa e desconfiada de viver, um contraponto e complemento para a personalidade de Elisabeth. Juntas, saem pelas estradas- que agora sim tem seu tempo e não precisam ser vertiginosas. O filme, assim como o que a protagonista vive para ultrapassar aquele amor, se fecha num ciclo, um círculo inacabado que forma uma espiral, pois antes de se concluído o caminho se desvia, para formar um novo ciclo.
A trilha sonora não poderia deixar de ter canções da protagonista, na sua versão cantora, mas isso não atrapalha a bela seleção de músicas, que são ouvidas- sim, você consegue sentir a música, em geral esquecida em outros filmes como pano de fundo. O filme de Kar-Wai, primeiro dele em inglês, mantém suas características e tem um belo trabalho de cores, contrastes de dias e noites e os closes repetidos nas entranhas da torta de blueberry. Quem gosta das brincadeiras de edição e câmera vai gostar das fusões de imagens sobrepostas, distorção de outras com os vidros, espelhos, letreiros e neons que surgem em profusão e dos planos deliciosos, com belas jogadas e escolhas de câmera, especialmente na primeira parte, quando tudo se restringe às noites dentro do café. O filme tem diversas referências ao cinema, aos grandes cineastas, como muitos críticos já notaram- e seria inevitável dizer- há uma forte ligação com Wenders em Paris, Texas, e à obra do próprio Kar-Wai. Você vai se sentir contemplado com este filme, seja pelo singelo, simbólico, enredo ou estética.