
Outro dia, um amigo sugeriu que eu escrevesse também sobre filmes mais antigos. Expliquei que não tinha muita razão para ainda não ter feito isso. Esta semana, o mesmo amigo comentou de um belo filme, desses que não são novos, e resolvi falar sobre ele. Então, vamos lá.
Ninguém Pode Saber (veja o trailer no link), de Hirokazu Kore-eda, é um filme de 2004. Tudo começa com uma mãe e seu filho mais velho, um menino de 12 anos, em plena mudança de casa. Há um exagero de cuidados com as malas que eles carregam. Quando entram no apartamento nós descobrimos outras três crianças dentro das malas. A mãe os faz prometer que ficarão escondidos do resto do condomínio. O único que realmente existe ali é o menino Akira. Em pouco tempo, ela abandona os quatro filhos vivendo sozinhos naquele apartamento de Tóquio. A angústia que nos persegue durante todo o filme é que, aquilo que vemos, toda a degradação e descaso, está baseada em uma história real acontecida em meados dos anos 80. A ausência das figuras paterna e materna, esta última presente apenas algumas vezes, pelo dinheiro enviado pelo correio; a miséria; a falta de estabilidade financeira e a impossibilidade do pequeno trabalhar; a instauração do caos; a vontade de sobreviver e o amadurecimento forçado de Akira. A partir disso, a responsabilidade, a moral, a degradação e todo um alicerce social, não apenas do Japão, mas da humanidade, é discutido.
Do mesmo diretor, outro filme maravilhoso, de 1998. O roteiro de Depois da Vida (aqui também tem vídeo) é muito original, discute a pós-morte e assim reflete profundamente sobre a vida. Na história, as pessoas mortas precisam passar por um local antes de continuarem o seu caminho na eternidade. Seria uma repartição pública? Um escritório? Ou um intermediário entre o céu e o inferno? Um purgatório? Isso de fato não importa muito. Para continuarem seu caminho aquelas pessoas têm uma difícil tarefa, precisam escolher uma única lembrança, de todas da vida. O momento escolhido é reproduzido, com a ajuda dos funcionários, e filmado, para ser levado na memória para sempre. Há quem se revolte em escolher uma, ou que não consiga se decidir, dada a quantidade de opções e outros que não se lembrem de algo que quisessem levar. Surgem as mais diversas memórias, algumas engraçadas, outras melancólicas, simples ou cotidianas. Por fim, a metáfora do cinema, como aquele capaz de reproduzir memórias, guardando-as para a eternidade é uma homenagem. Comentando um texto de outro amigo, sobre a memória de acampamentos na infância, tive vontade de dizer que somos feitos de lembranças. E como não? São elas- e a ausência delas- que alimentam o hoje e os planos e desejos futuros. Você saberia escolher a sua lembrança?
Nos dois filmes a beleza está no prolongamento do tempo de reflexão e nas pequenas coisas do cotidiano, tão importantes e evidentes no cinema oriental e, às vezes, ignoradas por outros cinemas que gostam das grandiosidades. É claro que quando falo aqui em “cinemas” estou querendo dizer um tanto a mais…
Nossa meu, estou desenvolvendo uma paixão por cinema chinês e japonês ultimamente…
Será porque eles se detem em coisas que nós ocidentais passamos por cima?
Será porque eles valorizam o tempo, a poesia de forma única?
Não sei, só sei que eles me encantam.
Depois da vida é simplemente magnífico, de uma profundidade.
Ai, ai….me deu vontade de ver mais.