Música para ver: documentários musicais brasileiros

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Na temporada de estréias nacionais deste mês está Coração Vagabundo (2008, Fernando Andrade), filme sobre o internacionalmente conhecido Caetano Veloso, e Um Homem de Moral (2009, Ricardo Dias) homenageia um dos maiores nomes da música paulistana, Paulo Vanzolini, autor de clássicos como Ronda. Ainda em cartaz, Ninguém Sabe o Duro que Dei (2008, Manoel, Micael Langer e Calvito Leal), retoma a história de Wilson Simonal, artista que agradou às massas, atingiu o sucesso como um foguete e que caiu tão rápido quanto ascendeu, devido ao seu suposto envolvimento com a ditadura militar. Impossível seria descrever esta tragetória sem colocar a polêmica em questão.

A recorrência do tema a partir da década de 90 demonstra, no mínimo, o interesse em trazer à tona, mais do que personagens, mas fatos importantes da história cultural do país: Vanzolini e a boemia paulistana; Caetano e o inovador movimento tropicalista; Titãs e o rock, em A Vida Parece Uma Festa (2009, Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves). A lista continua, já que as biografias do gênero já passaram por Nelson Cavaquinho (1969, Leon Hirszman), Nelson Freire (2003, João Moreira Salles), Paulinho da Viola- Meu Tempo é Hoje (2003, Izabel Jaguaribe), Vinicius (2005, Miguel Faria Jr.), Cartola: Música para os Olhos (2006, Lírio Ferreira e Hílton Lacerda), entre outros tantos.

Outra questão é que existe entre o realizador e o personagem objeto de análise, assim como entre o espectador e o artista, uma memória afetiva muito forte – independente de de ser fã ou não, pois a relevância social é muito maior do que a mera idolatria-. Quem não reconhece, por exemplo, a importância de Chico Buarque, Elis Regina, João Gilberto, entre outros tantos, mesmo sem gostar da música? Essas pessoas estão relacionadas a uma época, uma atitude, uma geração. Não se deve esquecer ainda a forte relação do brasileiro com a música de modo geral. De todas as artes, esta é a manifestação cultural que mais atrai adeptos verde-amarelos, sejam músicas nacionais, folclóricas, tradicionais ou populares, ou estrangeiras. Fato é que o Brasil vive de ritmos. Aliás, não só o Brasil, pois este “estilo” de documentário musical já é tão difundido internacionalmente que consta na filmografia de cineastas do porte de Godard e Scorsese, que levaram os Rolling Stones para as telas.

Chamar este filão de tendência pode ser exagerado. No entanto, este tema que poderia engessar a linguagem dessas produções se renova a cada lançamento, com uma nova experimentação. Ningúem Sabe o Duro que Dei e A Vida Parece Uma Festa optaram por uma reconstrução de seus personagens, baseada principlamente em documentos audiovisuais e entrevistas, preferindo uma edição mais televisiva, ou melhor, mais popular e apelativa a tal memória afetiva. O resultado é que você acaba, dentro da sala de cinema, cantando junto com os artistas da tela. Enquanto isso, Cartola: Música Para os Olhos, segue um rumo mais lúdico, carrega uma carga poética muito maior, na medida em que mistura realidade e ficção em uma edição bastante fragmentada, caótica e, portanto, menos clássica, para apresentar o contexto, os ambientes em que viveu o músico, utilizando como cobertura para os momentos em que não há registros da época fios de luz, linhas de trem e outros recursos. Tudo isso é resultado da mente de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, ambos por trás de Baile Perfumado (1996, Paulo Caldas e Lírio Ferreira) e Árido Movie (2006, Lírio Ferreira). Atualmente, Lírio está envolvido com outro documentário sobre música: O Homem Que Engarrafava Nuvens, sobre Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga. Já João Moreira Salles seguiu outro caminho, construindo Nelson Freire com uma estética tão erudita, límpida e harmoniosa quanto a excelência da obra do pianista.

A história não acaba por aqui. O recém estredo Cantoras do Rádio (2008, Gil Baroni) optou por trabalhar de forma coletiva e generalizada, se focando na chamada Era do Rádio e nas pessoas que contribuíram para sua existência. Na mesma linha está O Mistério do Samba (2008, Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor). Para o próximo semestre, também estão previstos o lançamento de Herbert de Perto (2006, Roberto Berliner e Pedro Bronz), sobre o “líder” de Paralamas do Sucesso, A Música Segundo Tom Jobim (2009, Nelson pereira dos Santos) e Loki: Arnaldo Baptista (2009, Paulo Henrique Fontenelle) (fonte: FilmeB). Bezerra da Silva, Nana Caymmi, Novos Baianos e Raul Seixas também serão destaques. Com a variedade e a qualidade de documentários musicais que já acumulamos daria para elaborar um grande festival apenas com esses filmes.

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2 comentários em “Música para ver: documentários musicais brasileiros

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