Enquanto os realizadores se estapeiam para ganhar um edital para produzir um filme, alguns jovens optaram por rifar uma garrafa de whisky. Com o saldo de aproximadamente 8 mil reais e apoio da faculdade e da produtora Mariza Leão, de Meu Nome Não é Johnny, nasceu Apenas o Fim. O estreante em longas-metragens por trás desta idéia é Mateus Souza, estudante de 20 anos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Tudo gira em torno da história de uma jovem que, cansada de tudo e de todos, inclusive de Antônio, seu namorado, decide fugir. Sua última hora antes de partir ela resolve passar com ele. Neste fim de relacionamento, eles relembram os bons momentos que passaram, criticam-se e fazem auto-críticas, enquanto Tom tenta convencê-la a desistir.
O filme já foi comparado às comédias de Woody Allen, aos dramas de Domingos de Oliveira e a Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Por-do-sol (2005), de Richard Linklater. A influência destes e de outros diretores como Bergman, Truffaut e do lema glauberiano “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” não passou à toa pelo jovem estudante de cinema, para a nossa sorte.
Apenas o Fim possui um argumento simples, foi filmado com tecnologia digital em aproximadamente 15 dias. A narrativa se passa em dois tempos. No passado, o casal aparece dentro de ambientes fechados, quartos e salas, nos quais têm diálogos intimistas, superficiais e clichês, por vezes, típicos de duas pessoas que querem se conhecer. A fotografia em preto e branco, os enquadramentos fechados e o posicionamento da câmera estática em plonggé, (de cima para baixo) contribuem para construir o clima. No presente, em cores, eles conversam enquanto passeiam pelos cantos da universidade, principal cenário da história. As transições entre estes dois momentos temporais lembram uma televisão fora de sintonia, remetendo ao estado espiritual dos dois personagens. Privilegiam-se planos longos, a câmera alternada, às vezes, leve e em movimento, outras vezes fixa, e a trilha sonora surge apenas como complemento, não para gerar emoção.
A simpatia do público se dá não apenas pelos temas contemporâneos da atual geração de jovens universitários. A situação representada é universal e comum a maioria dos casais de namorados. Além disso, é resultado do trabalho da convincente e realista atuação da dupla Érika Mader e Gregório Duvivier, que já trabalhou junta em Podecrer! (2007) e aceitou participar sem cobrar cachê.
Despretencioso e com orçamento baixíssimo – metade da renda veio do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ, o restante da tal rifa- o filme só chegou ao chamado grande circuito depois de ser promovido pela internet, por meio de blog, Twitter, Facebook, Myspace, Orkut, Youtube e um site. O longa, distribuído pelo Grupo Estação, já recebeu prêmio de melhor filme do Júri Popular no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo, além de ser selecionado para participar de festivais internacionais em Nova Iorque, Miami, Paris, Rotterdam, entre outros.
Quem acompanha as recentes produções nacionais sabe que o filme surpreende, pois distoa em forma, conteúdo, produção e distribuição, dos dramas sócio-econômicos e comédias românticas que avassalam as salas de cinema sem dar espaço para filmes de indivíduos, sobre sentimentos, coisas cotidianas e questões existenciais. Nós torcemos para que Apenas o Fim seja, com o perdão do trocadilho clichê e só para ficar no divertido climão dos diálogos do filme, apenas o começo.