
O Balão Vermelho (1956) é simples e lúdico. É daquelas obras que nos pegam já nas primeiras cenas para nos levar de volta à infância. Trata-se de um garoto, representado pelo filho do diretor do filme, Albert Lamorisse, que encontra um balão amarrado a um poste de luz e o liberta. Este plano-sequência surpreende o espectador, que não sabe o que a criança quer até terminar a escalada ao poste. A partir daí, o balão começa a segui-lo por toda Paris.
O diretor cria assim uma “fábula” sobre a infância e o amadurecimento, na medida em que dá vida a um objeto a princípio inanimado. O balão vira uma espécie de cachorrinho, ou melhor, um melhor amigo. O processo de zoomorfização, ouso até dizer, quase uma antropomorfização, é tão intenso que o balão não só acompanha o garoto, como também tem atitudes próprias. Como no trecho em que ele não quer ser segurado pelo seu companheiro, em um dos momentos mais divertidos do filme, ou durante as peripércias dos dois pelos bondes, a caminho da escola e no retorno para casa.
A beleza de O Balão Vermelho, como já afirmou André Bazin, em “Montagem Proibida”, não surge da utilização da montagem. O crítico afirma que o cineasta “recorre a ela acidentalmente” (grifo do autor) e que o balão realiza os movimentos que vemos em cena, por meio de truques e, por isso, “a ilusão, aqui surge como na prestidigitação da realidade. Ela é concreta e não resulta dos prolongamentos virtuais da montagem”. O menino e o balão, portanto, são protagonistas, pois estão sempre enquadrados em igual destaque e aparecem em planos duradouros.
A sensibilidade aflora em uma explosão de graça e delicadeza, quando a molecada resolve perseguir a dupla na tentativa de tomar o balão. Daí sucede uma sequência de perseguição e de alumbramento para retratar a vida, as descobertas sobre o mundo e as pessoas, a amizade, e, principalmente, fazer uma defesa da magia e do poético no cotidiano. Há pouquíssimos diálogos, a narrativa se desenvolve apenas com suporte da imagem e a trilha sonora acompanha quase todas as cenas. Com seus poucos minutos de duração, O Balão Vermelho venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original, o Prêmio Especial do Bafta Awards e a Palma de Ouro da sua categoria, todos no ano de 1957, e continua encantado todos que têm o prazer de o assistir.
Excelente comentário, mas faltou mencionar o recente “Le Voyage du Ballon Rouge” (Hsiao-hsien Hou, 2007).
É verdade, faltou comentar. Li sobre ele, mas ainda não tive oportunidade de assistir. Queria complementar com um comentário sobre O Cavalo Branco, mas achei que seria melhor deixar em posts separados.
Obrigada pela dica. Vou tentar assistir e atualizar o post. E você, o que achou deste que citou?
gostaria de sabber onde encontrar uma cópia desse belíssimo filme que não tem nas locadoras?
João, o filme passou recentemente no HSBC Belas Artes, em São Paulo. Em algumas locadoras melhores também dá para encontrar. Agora, talvez você encontre na internet…