Uma temática comum em diversas obras do cinema nacional contemporâneo é a vida urbana e a relação asfalto-morro. Fora do eixo Rio-São Paulo, destaca-se a produção sobre o chamado “Brasil profundo”, do qual o sertão é quase sempre o protagonista. Nesta busca pela identidade brasileira, a filmografia nacional ganha agora A Festa da Menina Morta, obra centrada na região Norte, especificamente na Amazônia.
Santinho, representado de forma naturalista por Daniel de Oliveira em uma de suas melhores atuações, é uma espécie de ídolo messiânico, um Antônio Conselheiro de uma pequena comunidade ribeirinha do interior do norte brasileiro. Foi santificado ainda criança, quando um cachorro entregou-lhe os restos do vestido de uma menina desaparecida. Desde então ele recebe tratamentos especiais pela sua suposta divindade e, em homenagem à Menina Morta, é feita uma festa anual, que já acontece há vinte anos. Nesta ocasião, ele divulga as previsões feitas pela Menina para o ano.
O personagem de Santinho, no entanto, é carregado de ambiguidade, a começar pela sua androgenia. É delicado e agressivo. Frágil e bruto. É luxurioso e profano, apesar de ser considerado superior pelo seu milagre. Assim como ele, a adoração pela Menina também é feita em um registro de dualismo. Ao mesmo tempo em que há diversos rituais sagrados- como a costura de um manto, coroas de flores, oferendas e banhos- a festa popular se torna espetáculo, quando ganha shows pirotécnicos, musicais e comércio de bebidas. Ao final, o mito começa a ser questionado pelo irmão da menina, Tadeu, que afirma que não houve milagre e que a menina havia realmente desaparecido ou sido morta. O próprio Santinho começa a se dar conta daquilo que construíram para ele. Destaca-se para esta tomada de consciência a cena do reencontro entre filho e mãe, com Cássia Kiss na pele da mãe, e o discurso cheio de dor e humanidade feito por Santinho no final, durante a festa.
Matheus Nachtergaele, ator de filmes como Baixio das Bestas (2007) e Amarelo Manga (2002), teve uma excelente estréia na direção. A inspiração em Cláudio Assis, que assina ambos os filmes citados é evidente, tanto no tema quanto na estética. Há referências ao Cinema Novo, com o uso de uma câmera inconstante e a presença de não-atores. O filme passeia pelo estetismo puro, pelo quase denuncismo, pelo registro dos documentários antropológicos e pela ficção. A fotografia de Lula Carvalho é escura, pesada e sufocante e, combinada ao ritmo lento e arrastado, causa incômodo no espectador. Ambígua também é a impressão do filme que fica no espectador, que fica exausto, mas ao mesmo tempo, permanece atento para compreender todo o folclore e a cultura presentes, manifestações tão longínquas do seu dia a dia nas grandes cidades. A Festa da Menina Morta foi selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes e marcou presença em festivais de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Chicago, Havana e Los Angeles.