Esse ano o Crítica Curta será diferente, como diz o próprio site do Kinoforum. Nesta edição, todos os interessados em crítica cinematográfica puderam participar, diferente dos anos anteriores em que apenas alunos de audiovisual e comunicação podiam se inscrever. Os candidatos participaram de uma oficina no MIS, uma com Sérgio Rizzo e outra com Christian Petermann e depois enviaram um texto sobre um dos curtas exibidos. Os selecionados, escolhidos pelo editor do tablóide do festival, jornalista e crítico de cinema Sérgio Rizzo, escreverão para o material de publicação do 20° Curta Kinoforum-Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 20 e 28 de agosto. Outra novidade é que a autora deste blog foi uma das selecionadas, com o texto abaixo, para fazer parte da equipe de 27 “críticos”.
Arabesco recorre ao fantástico universo de Borges e Poe
Curta de Eliane Caffé antecipa pistas sobre longas da diretora
A paulistana Eliane Caffé tem uma breve, mas reconhecida carreira como cineasta. Começou a produzir em meados da década de 80, assim como Tata Amaral e Beto Brant, e já no seu segundo curta-metragem, a diretora, roteirista e psicóloga por formação, deixava sinais do que seriam alguns elementos dos seus longas.
Em Arabesco (1990), dois assaltantes, vividos por Jonas Bloch e Alfredo Damiano, invadem um escritório sem portas e janelas, que guarda manuscritos e antiguidades, e no qual coisas misteriosas acontecem. Inconformados com a inexistência de um cofre, começam a vasculhar tudo na inútil busca por uma saída.
O filme foi produzido em pleno governo Collor, momento de sufocamento econômico-social, gerado pelo confisco de bens, e de início da crise de produção cinematográfica, com a extinção da Embrafilme. Não havia muitas saídas para a população. Neste sentido, Arabesco representa o contexto histórico do país e seus personagens encarnam duas soluções, o escapismo individual ou uma tentativa de acomodação.
O filme, porém, ultrapassa esta leitura. Como a própria palavra indica, arabesco é um conjunto de elementos que se repetem em um padrão infinito. Assim também é o único cenário do filme. Apesar de parecer restrita àquele ambiente claustrofóbico, a sala está em um espaço-tempo circular e sem fim. Este mundo fantástico se assemelha às obras de Jorge Luiz Borges, como no conto sobre a interminável Biblioteca de Babel. Impossível não lembrar também da Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, na medida em que um dos ladrões começa a se identificar com aquele estranho lugar. Assim como Roderick Usher representa a decadência da sua casa, o personagem de Jonas Bloch se afetua a certos objetos como a um astrolábio, reconhece em um mural a fotografia de uma mão praticamente igual à sua e, em desenhos, a situação que está vivendo. Suas expressões são marcadas pelo medo de que alguma verdade venha à tona, tal como no conto de Poe, também carregado de símbolos e oposições entre o real e a ficção.
Estes elementos são retomados na obra de Eliane Caffé, em filmes com registros mais realistas e menos fantasiosos. Seu curta Caligrama (1995) discute a situação dos moradores de rua, os “sem-lugar” da sociedade. Kenoma (1998), seu primeiro longa, foi inspirado em Ruínas Circulares, de Borges, e fala sobre a criação de uma máquina que funcione em moto-contínuo, mantendo um eterno movimento em oposição ao estagnado pequeno povoado que dá nome ao filme. Já em Narradores de Javé (2003), a população de uma cidade prestes a ser devastada pela construção de uma hidrelétrica decide documentar suas histórias, para que as memórias se preservassem, mesmo que o território se perdesse. Arabesco antecipa a problemática tempo-espacial em apenas 15 minutos, arrebatando diversos prêmios, entre eles cinco troféus no Festival de Gramado de 1990.
ARABESCO, de Eliane Caffé.
Brasil, Fic, cor, 35 mm, 1990
Camila, parabéns pela seleção.
Precisamos nos encontrar, não acha?
Beijos
“Arabesco” é realmente um curta excelente, que vi há alguns anos na programação do Curta às 6 Petrobrás. Gostei muito da abordagem considerando o momento histórico, Camila. Meus parabéns.
Maravilhoso unir Cinema e Literatura, com tanta propriedade. Muito boa sua leitura. Parabens.