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A Fita Branca e o ovo da serpente


“Ninguém vai acreditar em você, apesar de que qualquer um que fizer o mínimo esforço pode ver o que lhe espera no futuro. É como o ovo de uma serpente. Através das finas membranas, pode-se discernir o réptil perfeitamente concebido”.
“O Ovo da Serpente”, filme de Ingmar Bergman.

Um vilarejo protestante da Alemanha, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, foi o ambiente escolhido por Michael Haneke para contextualizar o enredo de seu mais novo filme, “A Fita Branca”, do qual também é roteirista. A tranquilidade local é colocada em xeque quando acontecem misteriosos crimes. Primeiro, o médico local sofre um acidente ao passar a cavalo por uma invisível corda, levando um tombo grave que resultou em vários meses hospitalizado. Depois, diversos incidentes envolvendo ataques contra mulheres e crianças.

Assim como em “Caché”, filme do diretor de 2005, descobrir quem são os culpados é o de menos. Mas em “A Fita Branca” é inevitável não lembrar do conteúdo do bilhete encontrado com um dos meninos agredidos, que afirmava que as crianças seriam punidas pelos crimes dos adultos. Violência e punição são os conceitos que regem esta história. Nesta linha, é possível observar que as personagens desta tragédia são apresentadas pela sua função: o professor, a parteira, o médico, o barão e a baronesa, o pastor. Somente as crianças fogem à essa regra e são apresentadas-sempre- pelo próprio nome. Além disso, essas funções sociais estão, na maioria das vezes, relacionadas a alguma forma de poder, controle e repressão na educação escolar, na ciência, na política e na economia, na religião e, como não poderia deixar de ser, na família controlada pelo patriarcalismo. E são destes núcleos que brotam as violências que assistimos em preto e branco.

O mediador que nos carrega a este tempo e espaço é o professor, que faz uma narração em off anos depois dos acontecimentos, o que dá ao seu relato distanciamento. Esta personagem é construída justamente para enxergar esta comunidade com outras lentes: ele conhece aqueles pais e crianças, sabe de suas atitudes, é capaz de refletir e relacionar todos os crimes e tirar disso uma conclusão. Ao mesmo tempo, é também mais um membro desta sociedade extremamente religiosa, controladora e violenta. Sua atitude de expor à polícia uma pequena menina que lhe pediu ajuda endossa este argumento. Afinal, ele é mais uma vítima deste mundo onde não há pureza e inocência, tal como pregado no uso da fita branca que dá título ao longa. Correção, todos ali são culpados e corrompidos. No entanto, o mal não aparece em Haneke como natural ao homem, mas como o resultado de um processo cultural amargo e desumano.

A linguagem escolhida para contar esta narrativa linear contribui para aproximar essas imagens das nossas memórias desta época, tal como o próprio diretor declarou em entrevistas. A fotografia naturalista de Christian Berger facilita a expressão dos atores e nos afasta de uma representação realista das agressões físicas. Neste filme, assim como em “Violência Gratuita”, ele preferiu ocultar essas cenas. Em ambos os longas a intensidade da violência fica, portanto, a cargo da bagagem do espectador. No cinema de Haneke o que vale é tirar o espectador da passividade e fazê-lo pensar em seu papel diante dos filmes, de contextos históricos e do mundo a sua volta. Para o diretor, o importante não são os atos violentos em si mesmos, mas suas causas e consequências. Não à toa, “A Fita Branca” foi relacionado ao nazismo, às grandes guerras mundiais e às diversas formas de totalitarismo da história da humanidade. A referência a estes fatos não precisa ser explícita, mas trata-se justamente do ovo da serpente. Ideia, aliás, muito presente em sua obra.

3 comentários em “A Fita Branca e o ovo da serpente

  1. Já falei que o seu blog é também uma ótima saída para pessoas leigas como eu que nunca sabem o que rola no cinema além de blockbusters?rs
    Pois é, aqui sou cutucada a acordar e conferir o que muitos cineastas criam por ae. Mas eu não acho isso ruim não! Pelo contrário, é gratificante como você traduz em palavras todo o contexto audiovisual.
    Parabéns =)

  2. A sua análise foi muito além do que tenho lido. O seu texto realmente vai além do óbvio e encaminhou uma opinião com bastante sutileza.
    Você ganhou um leitor.

  3. Pingback: Top filmes 2010 | Inquietações do Cinema (ou Lente de Contato)

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