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Manderley ganha status de personagem em Rebecca

Aproveitando que Alfred Hitchcock estará representado na mostra retrospectiva do Festival de Cannes deste ano com uma versão remasterizada da trilha sonora de “Psicose” (1960), resolvi falar de um filme menos conhecido do mestre do suspense.

É com uma voz off de uma narradora que os espectadores são convidados a ultrapassar um portão e conhecer Manderley e a história de “Rebecca” (1940), uma das primeiras produções de Hichcock em solo norte-americano. O filme é uma adaptação de um romance homônimo de Daphné du Maurier e, como tal, sofre alterações consideradas, no meu ponto de vista, adequadas e capazes de melhorar a história original. Uma moça simples, dama de companhia de uma senhora, conhece o rico Maximillian De Winter durante as férias na França. Atormentado pela morte de sua esposa, o viúvo é arrebatado pela jovem que consegue afastá-lo de seu passado ameaçador. Porém, a chegada do casal à casa em Manderley traz à toa conflitos e angústias que culminam em um final surpreendente.

A primeira sequência de “Rebecca”, descrita no parágrafo anterior, funde um sonho a um flashback narrado pela jovem protagonista. Na primeira parte do filme, durante as férias em Monte Carlo, as sequências são ágeis, às vezes com elipses temporais e descrevem o envolvimento dos amantes. No caminho para Manderley, o jovem casal passa por uma forte chuva, um prenúncio da tempestade que se abateria sobre eles. Assim que chega à mansão, a recém-casada Sra. De Winter precisa ultrapassar uma primeira barreira simbólica construída pela disposição de uma “muralha” de criados no saguão. E é também neste momento que ela conhece a assustadora governanta, Sra. Danvers. A partir daí, a protagonista precisa se adaptar a um novo mundo de luxo e riqueza, antes dominado pela primeira Sra. De Winter, Rebecca. Neste ponto, os personagens principais já estão apresentados: Maximilliam De Winter e sua jovem esposa, Sra. Danvers, Rebecca e, por que não, a mansão.

Manderley deve ser considerada como um ente à parte, tamanha a sua força. Em primeiro lugar, já no flashback, a personagem rememora Manderley dominada pelo mato, como se a natureza controlasse o local. Além disso, como descrevem Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété, em “Ensaio Sobre A Análise Fílmica”, o cenário é teatral, rebuscado e cheio de detalhes (cortinas e janelas) fundamentais para a composição da narrativa e dos personagens. “Temos uma visão fragmentada do espaço, pouco valorizado, em proveito dos personagens. Assim, se o lugar é teatral, é para as personagens que o ocupam (p.77).” Além disso, neste trecho existe uma contraposição espacial ao momento vivido em Monte Carlo: se na primeira parte, os ambientes eram bastante iluminados e movimentados, em Manderley há escuridão, sombras, poucas pessoas e aposentos que não devem ser visitados – como o quarto de Rebecca, cuidadosamente mantido pela governanta. Assim como em “A Queda da Casa de Usher”, conto de Edgar Allan Poe, Manderley também é tratada como um personagem decadente, mortífero e assustador.

Não suficiente, a casa inteira está tomada por pertences de Rebecca. Sra. De Winter por sua vez, sente-se reprimida pelo espaço, pela sombra de Rebecca e pela Sra. Danvers, que a odeia e faz de tudo para que ela sinta-se uma estranha. Uma das marcas deste estranhamento da protagonista é justamente a ausência de uma identidade. Enquanto Rebecca é trazida para o presente pelos objetos com a letra R estampada e por ser sempre citada, a segunda Sra. De Winter nunca é chamada por um nome. E essa postura frágil da segunda Sra. De Winter só se altera com uma declaração do marido, na última parte do filme.

Na leitura de Hitchcock a história é mais misteriosa, tensa e a protagonista é construída de maneira mais tímida, delicada e apaixonada. Talvez por isso, pelas alterações feitas, a impressão de que Manderley seja realmente um personagem se destaque. E tal como em Usher, a casa se destrói na medida em que as verdades escondidas vem à tona e reconstroem o passado.

 

4 comentários em “Manderley ganha status de personagem em Rebecca

  1. Engraçado você citar o livro de Análise Fílmica, foi exatamente após lê-lo que fui buscar assistir ao filme, pouco divulgado, como você falou. A forma como a presença de Rebeca em mantida em Manderley pela governanta é fantástico. Eu gostei muito do filme.

  2. aaaaaaaaaaaaaa o gordinho mais fofo do mundo ganhou um post especial, hein?! Adorei o texto e prometo que vou colocar o meu texto do Usher, tá?
    Preciso só achar ele rsss

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