Zelig, o homem-camaleão

A ideia de que usamos máscaras e que representamos papéis sociais não é novidade. Um exemplo é a análise do sociólogo Erving Goffman no livro “A Representação do Eu Na Vida Cotidiana”. Basicamente, o autor defende que a interação com outras pessoas é influenciada pelo ambiente e pela audiência, como acontece com a performance de um ator. Uma genial transposição deste conceito para o cinema está presente em “Zelig”  (1983), dirigido e roteirizado por Woody Allen.

Leonard Zelig (representado pelo diretor) é um homem que assume a forma de outras pessoas quando na presença delas. É capaz de imediatamente se transformar em um gordo, negro, judeu, grego, índio, nazista, entre outros. Para contar essa história, Woody Allen propôs um artifício metalinguístico, uma ficção travestida de documentário. Uma representação sobre a representação e para isso, recorreu ao formato mais clássico de documental. Por meio de fotografias e da manipulação de imagens, cria passagens em que este personagem não-real, aparece junto de Charle Chaplin, do então presidente norte-americano, e até de Charles Foster Kane, o Cidadão Kane de Orson Welles. Porém, o grande destaque é o recurso de entrevistas com intelectuais como Susan Sontag, crítica e ensaista, Bruno Bettelheim, psicólogo, com o escritor Saul Bellow e outros, oferecendo ainda mais credibilidade ao Zelig. Até mesmo a doutora Eudora Fletcher, vivida por Mia Farrow, aparece, anos mais tarde e representada por outra atriz, dando depoimento sobre suas lembranças. Forma-se uma realidade falseada com aparência de verdadeira.

A criação deste personagem fantástico também permite ao cineasta novaiorquino discutir como há uma exploração midiática de casos e eventos semelhantes. Zelig passou a ser estudado por psicólogos e psiquiatras, virou capa de jornais e tornou-se uma celebridade. Com a mesma velocidade, sofreu acusações e foi rejeitado pela imprensa e pela sociedade. Zelig é a concretização do nosso tempo, da busca por uma identidade e da construção dela própria a partir do outro. O motivo? Para se sentir mais seguro, usando as palavras do próprio personagem. Ergin Goffman, citado no início, diz que “(…) o papel que um indivíduo desempenha é talhado de acordo com os papéis desempenhados pelos outros presentes e, ainda, esses outros também constituem a platéia” (GOFFMAN, 1999). Zelig- que até no nome tem mais de uma personalidade, já que lido de trás para frente, é Gilez- só não tomou a forma feminina. Detalhe que não é pouca coisa, tendo em vista que, assim como Ingmar Bergman, Woody Allen, mais de uma vez tratou da inquietude humana por meio da mulher, a exemplo de “A Outra” (1988).

“Zelig”, assim como outros filmes de Woody Allen, um exemplo é o recente “Tudo Pode Dar Certo” (2009), faz uma crítica sobre o ser humano. É uma história localizada nos anos 20 e 30, produzida nos anos 80 e que, assistida nos anos 2000, gera reconhecimento e identificação. É atemporal, daí seu frescor e atualidade. Só um roteirista e diretor consciente da, digamos, “miséria humana” seria capaz de transferir para o cinema um conflito psicológico e uma situação social tão bem contextualizados, com humor e acidez crítica.

6 comentários em “Zelig, o homem-camaleão

  1. Repito o comentário que fiz ao vivo: meu, vc é muito nerd!!!
    Mas não é uma crítica, é um elogio rs
    um dia chego lá…nao sobre cinema…mas…chego hehhehe

    Parabéns pelo texto. Mas fica uma pergunta: Por acaso vc prefere filmes PB?rs

  2. Belo texto! Eu não vi Zelig, mas sempre reconheci em Allen, além de um excelente cineasta e notável roteirista, um crítico contumaz da nossa sociedade, muita gente passa batido por isso, por causa do seu sarcasmo, mas vc foi perfeita em elencar isso no perfil do diretor.

    • Oi, Jorge. Obrigada pelo comentário. Zelig, assim como Manhattan estão na minha lista de preferidos do Woody Allen. Mas ainda tenho uma vasta filmografia dele para ver antes de dar um veredito! Vi que seu blog é bem recente e que também é sobre cinema. Passarei por lá para acompanhar e comentar! abraços

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