“O Estranho Caso de Angélica”, mais recente filme do cineasta mais velho em atividade, flerta com diversas artes. O roteiro é simples e narra a história de um fotógrafo que vai fazer um retrato de uma linda jovem que morreu. Ele se encanta com a bela moça e ela se torna sua obsessão, interferindo no seu sono, na sua alimentação, no seu dia-a-dia profissional.
A fotografia de Sabine Lancelin explora luzes e sombras como quadros barrocos de Caravaggio. Assim como em obras como em “Vocação de São Mateus”, a luminosidade presente literalmente dirige a atenção do espectador. Mesmo assim, há muitas sombras, tornando a atmosfera pesada para tratar de temas como a angústia, a morte e a passagem do tempo.
As atuações pouco realistas, a cenografia, o posicionamento e a pouca movimentação da câmera lembram muito a concepção teatral, característica comum da cinematografia deste português. A influência da literatura também está presente, não apenas nos trechos de poemas recitados, mas em momentos em que diálogos são bem marcados pelo registro formal escrito. Emoldurando todo este universo que mistura real e o imaginário está uma trilha sonora pincelada de músicas clássicas que ganha status de protagonista, tamanha sua grandiosidade.
Por fim, como não poderia deixar de ser, o diretor presta a sua homenagem à história do cinema. Usando recursos gráficos no melhor estilo Meliès, com aparições e desaparecimentos bruscos tal como o ilusionista usava em seus curtas. Em tempos de lançamentos contínuos em 3D, isso quer dizer muita coisa. Além disso, pode-se pensar na relação com “Blow Up”, de Michelangelo Antonioni, em que um fotógrafo expande os limites da técnica fotográfica com a ampliação dos pixels, para buscar aquilo que seria a “realidade pura” em oposição à ilusão.
Manoel de Oliveira, atualmente com 101 anos, alivia a tensão da temática fúnebre, oferecendo um pouco de encantamento lúdico à dureza da chegada da morte e da passagem do tempo, enfatizada pelas repetições de eventos. O tempo, sepultador de tradições e costumes e que faz surgir o novo.
Inspirado pelo contexto pós-Segunda Guerra Mundial e originalmente escrito na década de 1950, “O Estranho Caso de Angélica” foi censurado pelo salazarismo, por discutir política e religião. Tais temáticas foram atualizadas, com citações à crise econômica, à permanência de preconceitos religiosos e até mesmo ao aquecimento global. O filme finalizado apenas recentemente, em co-produção com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, foi lançado no Festival de Cannes.