A morte pode ser uma experiência dolorosa, mas não quando o mediador é Apichatpong Weerasethakul. Este jovem tailandês constrói uma filmografia densa, com temas universais, linguagem e estética muito próprias. ”Tio Boonme, que pode recordar suas vidas passadas”, vencedor da Palma de Ouro 2010, seu sexto longa-metragem, fala sobre um homem doente que se isola em uma floresta enquanto recebe espíritos de parentes.
O roteiro, adaptado de um livro de um monge sobre as memórias de outras vidas, incorpora elementos do budismo, da cultura tailandesa, como o macaco-fantasma, e da produção audiovisual local, como o próprio diretor comenta em entrevistas. Desta forma, discute-se a morte, a religião e, em especial, sobre o humano em si e em sociedade a partir de personagens e situações que remetem aos seus outros filmes. Um exemplo claro é o personagem do jovem budista, que ganha ênfase no final do longa e que já havia sido apresentado em “Síndromes e um século”. O destaque fica para o conto da carpa e da princesa que não suporta sua aparência, a partir de onde desenvolve-se um excerto praticamente independente e com viés simbólico sobre a passagem do tempo e a relação com os bens materiais.
Já na abertura, Tio Boonme torna-se uma experiência sensorial. Os olhos do espectador, alimentados pela fotografia que enfatiza as tonalidades oferecidas pela natureza, são chamados a ver paisagens tão perfeitas que parecem irreais. Também é aguçada a nossa percepção dos sons, milimetricamente registrados, em especial nos ambientes externos.
Os planos longos e abertos, a ausência de trilha sonora e as atuações praticamente amadoras e o rtimo lento contribuiem para a reflexão. O real extravasa à própria realidade em meio a um universo lúdico. Apichatpong consegue criar uma mise en scène belíssimas e diálogos complexos que se perpetuam na nossa mente, como uma interminável sessão de cinema.