Em 2008, fiz uma breve análise relacionando dois filmes muito interessantes se cruzam pela convergência de duas cenas. O brasileiro, é “Abril Despedaçado” (2001), de Walter Salles que conta a história de uma família no sertão nordestino que vive um ciclo vinganças e mortes com uma família rival. “Asas do Desejo” (1987), de Wim Wenders fala sobre um anjo que se apaixona por uma mulher e torna-se humano. Retomo aqui esta ideia para melhor desenvolvê-la.
Em “Abril Despedaçado”, adaptação do romance homônimo de Ismail Kadaré, sobre duas famílias rivais, regidas pela lógica da vingança. Há grande destaque para o personagem do Menino, narrador-personagem da história. No entanto, a cena escolhida se destaca por Tonho (Rodrigo Santoro), que deve vingar a morte do irmão mais velho, assassinando um membro da família inimiga. Porém, com a chegada de Clara, artista circence, na cidade, a vida de Tonho pode tomar outro rumo. Em dado momento, ela escala uma corda e pede que Tonho gire a corda. Ele a aprecia, maravilhado com sua coragem e espontaneidade, enquanto a moça se lanca neste vôo. A cena é representativa, pois resume o dilema do filme: Tonho é enraizado naquele lugar e nas crenças, é estático e contribui para dar continuidade à tradição. Clara, ao contrário, não se prende a lugar algum, passeia pelo sertão com o padrasto e seu vôo simboliza a liberdade e a iniciativa ausentes em Tonho.
Wim Wenders, em “Asas do Desejo”, premiado no Festival de Cannes, também opõe um casal por meio de artifícios de circo. Marion treina um número novo no trapézio, vestida de anjo. Enquanto isso, é observada pelo verdadeiro anjo, Damiel. Durante este vôo, ela finge que vai cair e o filme, que era preto e branco, fica colorido por alguns instantes, marcando o momento em que ele passa por um sentimento humano: a emoção do amor. Uma cena semelhante voltará a acontecer quando ele finalmente se tornar um “caído”, assumindo a forma humana. Neste outro momento, Damiel, assim como Tonho, também ajuda a artista a girar no topo da corda e chega à conclusão: “Eu agora sei o que nenhum anjo sabe” (a cena não está disponível no YouTube, mas você pode conferir no trecho 02:30:20 do filme). 
Tonho e Clara vivem em um contexto em que um ciclo de mortes contínuas, originado em tempos desconhecidos, não tem previsão de acabar. Já Damiel e Marion são cercados pela guerra, destruidora de Berlim e de suas próprias identidades. Em certo momento, Marion enfatiza este desconforto: “olho-me no espelho e não vejo nada.” Tanto no filme de Walter Salles quanto no de Wim Wenders há uma busca pela libertação dos personagens, ao mesmo tempo, em que são rondados pelo medo e pela morte.
Em 2008 tive a oportundiade de ver Wim Wenders ser sabatinado em evento da Folha de S. Paulo (22/08/2008) e com a presença de Walter Salles. Na ocasião, Wim Wenders comentou a importância de um cinema “com forte sentimento de pertencimento local”, no sentido de que os filmes precisam contar histórias com identidade, que reflitam o próprio país. “Central do Brasil [Walter Salles], por exemplo, foi tão brasileiro, imensamente brasileiro. Você entende de onde ele vem”, disse o diretor. Walter Salles, por sua vez não conteve elogios ao colega e comentou que foi muito influenciado por sua obra. Bom, isso não precisa nem explicar, podemos ver nos seus filmes.
lindíssima a conexão!
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