Feed on
Artigos
Comentários

E começa abril, um mês que promete, pelo menos para nós, cinéfilos de plantão. Preparem os corações para aguardar as estréias que vem por aí. Por trás dos títulos prometidos para este mês temos, nada mais nada menos que Scorsese, Gondry, Amos Gitai e uma lista bem recheada de brasileiros. Pipocas estouradas, vamos ao que interessa.

A grande espera é, obviamente por Shine a Light (clique para ver o trailer no próprio site, com qualidade impecável). Motivos para o alarde não faltam. Scorsese no cinema, em documentário sobre, nada mais, nada menos que uma das maiores bandas de rock da história, que completa 45 anos de carreira. Rolling Stones. A proposta é simples, filmar duas apresentações da banda. Mas algo me diz que bastidores e palco desta experiência não podem passar desapercebidos por ninguém. A qualidade da imagem é assustadora, a luz está perfeita e faz brilhar ainda mais a trajetória da banda, condensada neste documentário-show. Sugiro fortemente que você pegue aquele guia recém-lançado, com as melhores salas de cinema da cidade e faça a sua seleção. Leve em conta a qualidade da tela e do som desta vez, mesmo que para isso você tenha que dar um pulinho naquelas filas de shoppings. O esforço valerá a pena. Ainda não vi o filme, mas o trailer foi suficiente para empolgar até quem não tem as músicas na ponta da língua.

Amos Gitai, diretor israelense do belo Free Zone, retorna às telas brasileiras com o longa A Retirada (quem pode asssitir, viu um curta seu no filme Cada Um Com Seu Cinema, ainda em cartaz por aqui). Mais uma vez, o diretor olha para a sua terra de origem e faz um filme refletivo a partir da história do reencontro de dois irmãos para o funeral do pai, na França. O conteúdo do testamento obriga Ana e seu meio-irmão a voltarem para Israel e reencontrarem o passado e presente de suas vidas e da realidade sócio-política do país. Com Juliette Binoche.

E só para me deliciar, já que estou debruçada sobre o cinema brasileiro, mais e mais estréias nacionais vem chegando. O primeiro que gostaria de comentar é o filme Estômago, do estreante Marcos Jorge. Baseado em um livro, conta como o cotidiano e os planos de prisioneiros muda com a chegada do companheiro de cela Raimundo, um cozinheiro de mão cheia. O trailer me pareceu muito interessante e o filme já andou sendo premiado por aí. Os veteranos Carlos Reichenbach e Walter Lima Jr. estréiam com a Falsa Loura e Os Desafinados, respectivamente. Reichenbach segue falando sobre as proletárias de fábricas em seu novo filme, que pode gerar pré-julgamentos pelo seu elenco. O filme de Walter Lima Jr., que ficou quase 10 anos sem lançar longas, trabalha com passado e presente, cinema e música, com referências ao Cinema Novo e a Bossa Nova. Os Desafinados me parece tão poético e fragmentado como seu A Ostra e o Vento. Como o próprio diretor afirma, para a revista IstoÉ online, “bateu a necessidade de falar de Brasil, de assumir um olhar mais politizado sobre o que eu vi – sem rancor, com humor, sem estar esvaziado ou melancólico”. Nem preciso dizer que voltarei para dar mais espaço para ele, não?

Queria ser Bob Dylan

Naquele sábado, entrei no cinema com a certeza de que veria um bom filme. O dia era propício e eu acabara de roubar um pouco de um saboroso chocolate quente da xícara companheira. A sala ficou escura e a projeção começou me dando um tapa na cara. Aquele não seria um filme comum. O letreiro, que fazia uma brincadeira (i’m not here) com o nome do filme, deu a dica. E então sou apresentada a um músico prodígio do Blues, um menino negro com 11 anos de idade; um poeta, um tanto surrealista; um artista de cinema em crise familiar; um Billy The Kid lutando contra a destruição de uma cidade localizada em um vale; o cantor folk que se converte e vira pastor e um cantor de rock.
Uma biografia, pensava eu durante o filme. Isso é um engano, ou no mínimo uma injustiça. Por mais que todas as histórias ali contadas se baseassem na vida de uma pessoa, havia mais ali do que uma individualidade. Eles poderiam ser qualquer um de nós, poderiam ser eu mesma. Afinal, quem não é multifacetado, metamorfoseado a cada segundo que passa?
Percebi que esta era apenas uma das formas universais que este filme assumiria. Durante a exibição, pensava qual seria o papel do artista. Fazer o que a sociedade quer ver e ouvir, ou seria ao contrário? O artista tem liberdade ou se limita aos limites impostos? Em que medida é possível não ser absorvido pelo sistema? Quando começava a me perder nos pensamentos propostos pelo filme, a estética vinha arrebatando a minha atenção. Uma correnteza de estímulos. Utopia e realidade. Ficção e documental. Preto e branco. Vermelho, azul, amarelo. Mistura de cores com a ausência delas. Edição fragmentada, imagem, tempo, sons agradáveis e estridentes. E referências, além das pequenas doses de elementos nonsense. Personalidades conflitantes, ao mesmo tempo, complementares. Forma e conteúdo em uma convergência milimetricamente perfeita.
No meio do filme, me sentia plenamente consciente de dizer “não quero que ele acabe”. Mas acabou. E os créditos subiam, enquanto me vinha uma forte e emocionada onda de felicidade e prazer, que pude compartilhar longamente com meu companheiro, dono daquela xícara. Naquele sabádo, vi muito mais do que um bom filme.

***

Deixe o conservadorismo em casa. Vá ao cinema com a cabeça aberta, num dia em que não esteja buscando linearidade e conforto mental. Christian Bale, Heath Ledger, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Ben Whishaw e Cate Blanchett fazem o papel de Bob Dylan em interpretações fantásticas que, assim como o próprio Dylan, fogem da nossa compreenssão (Cate Blanchett fica quase irreconhecível e Richard Gere está em seu melhor papel, para comentar apenas duas das atuações). I’m Not There (veja o link para o trailer), obra-prima do diretor Todd Haynes, vai deixar marcas…

Alfred Hitchcock é o mestre do suspense e foi responsável por contriibuir para a construção da história da cinematografia. Produziu na Inglaterra e inaugurou o primeiro filme com som em território inglês, Blackmail ou Chantagem e Confissão, de 1929. Depois, foi para os Estados Unidos num período em que conseguia lançar quase um filme por ano. Neste mês, a revista americana Vanity Fair, escolheu ele e sua obra para ser objeto do Hollywood Portfolio: Hitchcock Classics. Foram convidados 21 atores para reconstituírem cenas de 11 filmes do diretor.

Marejaram os olhos?
E como a curiosidade mata, veja a lista completa de atores e os respectivos filmes:
Disque M para matar- Charlize Theron;
Janela Indiscreta- Javier Bardem e Scarlett Johansson;
Rebeca-
Keira Knightley e Jennifer Jason Leigh;
Vertigo- Renée Zellweger;
Marnie- Confissões de uma Ladra- Naomi Watts;
Psicose- Marion Cotillard;
Intriga Internacional- Seth Rogen;
Os Pássaros
- Jodie Foster;
Ladrão de Casaca- Gwyneth Paltrow e Robert Downey Jr.;
Pacto Sinistro- Emile Hirsch e James McAvoy;
Um barco e Nove Destinos- Casey Affleck, Josh Brolin, Julie Christie, Ben Foster, Omar Metwally, Eva Marie Saint e Tang Wei.

Que resultado! Um trabalho de equipe, os atores praticamente encorporaram seus papéis, para apenas uma sesão fotográfica; a direção de arte e figurinistas também foram sensacionais, conseguindo reconstituir os cenários e roupas tal qual foram feitos pela direção do mestre.

Quem é fã pode se deliciar, fazendo comparações das cenas originais com as releituras, e quem não é também vai curtir. Parte do resultado pode ser visto aqui, em um making off e em 11 fotografias (ao clicar neste link você poderá ver todas elas. Abaixo de cada foto, confira o nome dos fotógrafos e a foto original). A minha preferida é a de Janela Indiscreta, com a dupla Javier Bardem e Scarlett Johansson, na pele dos personagens Jeff e Lisa, encarnados no original por James Stewart e Grace Kelly. E a sua, qual é?

Já quem quiser conhecer mais sobre a obra e a pessoa de Hitchcock pode, além de sair correndo para ver todos os seus filmes, engatar na leitura de Hitchcock / Truffaut: Entrevistas, livro escrito pelo próprio François Truffaut, resultado de uma série (bem extensa, eu diria) de perguntas. O texto é uma delícia de ler e trabalha elementos da vida pessoal do diretor, das técnicas utilizadas e da sua relação com atores e produtoras, revelando, por exemplo, que nem sempre a presença constante de certos atores era totalmente de seu desejo e agrado. Outro fato interessante ali descrito é que, em Janela Indiscreta todos os atores que aparecem nas janelas vistas pelo nosso fotógrafo da perna quebrada eram dirigidos por um ponto, a partir do qual ouviam as direções. Assim, é possível ver um casal brigando em uma sacada, pois o diretor deu a mesma instrução para ambos, de puxar um colchão cada qual para o seu lado, gerando uma briga mais “natural”.

Esta semana assisti o brasileiro A Ostra e o Vento (199 8) de Walter Lima Jr, que trabalha com algumas características da filmografia de Hitchcock. Não apenas há uma atmosfera de suspense, mas também referências muito fortes e diretas em algumas cenas.

Ao que parece março terá dois fatores inusitados nas estréias do mês.

Em primeiro lugar, é importante notar que tem muito filme brasileiro chegando às telonas. Acho que 2008 vai ser um ano bem recheado de filmes nacionais.

Laís Bodanzky vem com o Chega de saudade, que está anunciado há tempos, para criar uma ficção sobre uma noite de freqüentadores de um baile de terceira idade, na cidade de São Paulo. Já Serras da desordem é um documentário de Andrea Tonacci baseado na vida de Carapirú, um índio que sobreviveu a um ataque a sua tribo e tornou-se um nômade, desaparecido pelas terras do país, até que, 10 anos depois, na tentativa de ser identificado, reencontra seu filho. Um filme com características bem antropológicas, pode abrir espaço para refletir sobre o indivíduo e seu lugar na sociedade. Juízo discute sobre os jovens, a criminalidade e as punições. Vale a pena notar que, como identificar jovens infratores é proibido, os meninos filmados não estão, na realidade, nas condições apresentadas, embora vivam de forma semelhante. Ao mesmo tempo, as outras são pessoas reais, em atividades reais.

O Fim da linha, com a sua chuva de dinheiro no centro de São Paulo, vincula os vários núcleos de personagens (políticos, índios, catadores de papel e outros) apresentados e Ainda orangotangos, um plano-seqüência (sim, é isso mesmo, um plano-seqüência) que conta em 81 minutos as 14 horas de quinze personagens que circulam por Porto Alegre (olha só, mudamos o cenário, saímos dos sertões e do eixo Rio-São Paulo). Ufa!

O outro fenômeno ao qual me referi é a chacina aos presidentes norte-americanos. Como assim? Simples. Há duas estréias previstas para matar o tal presidente. O primeiro é uma produção britânica, que combina características documentais e ficcionais para falar sobre A morte do presidente George W. Bush. A história parte do assassinato deste Bush por um franco-atirador, quando saía de um hotel de Chicago. Foi eleito o melhor filme pela crítica lá no Festival de Toronto. O segundo, Ponto de vista, descreve o incidente do assassinato do presidente (ao que parece não é de um presidente específico, mas vale ver para conferir se há dicas sobre a política econômica, de segurança nacional e assim vai). E para quem cansou de ver Mattew Fox como Jack, do seriado “Lost, pode ver a sua atuação finalmente num longa. No entanto, acho que quem brilhará mesmo será Forest Whitaker, do Último rei da escócia. Coincidência ou não, presidentes norte-americanos já foram muito assassinados nos cinemas. Algum motivo casual para dois roteiros semelhantes surgirem agora, numa mesma época? Não digo que estes dois filmes sejam promessas, ou sejam ruins, mas alimentam a reflexão anterior. Ficam as dicas para pensar.

Mais uma coincidência. Bod Dylan chega ao Brasil nas versões carne-e-osso e “película. Isso por que o músico fará shows hoje e amanhã no Via Funchal, além de outros no Rio de Janeiro e, não suficiente, há boatos de que a prefeitura de São Paulo quer fazer um acordo para um mega-show de Dylan, de graça, para um público nada pequeno. No cinema, ele esterá representado pelo filme I’m not there (Não estou lá), uma biografia muito inovadora em que diversos atores (entre eles, Christian Bale, Cate Blanchett e o jovem Heath Ledger, recém falecido) farão o papel de Dylan, nas várias fases da sua vida- ver a foto lá de cima. A proposta não é contar ipsis literis a vida do cantor, mas digamos assim, fazer uma adaptação para as telas. Quem já viu pode ter achado confuso, mas a impressão é de fragmentar e enriquecer ainda mais esta vida recortada. Alguma opinião?

Ah, e finalmente, o prometido Cada um com seu cinema, previsto para o mês passado, poderá ser visto já esta semana. Depois de tudo isso, só pegando um cineminha para conferir o que realmente há de bom rolando.

O beijo no cinema

Hoje perdi o primeiro ônibus do dia.
O culpado? Paulo Emílio Salles Gomes e o seu texto “Erotismo e humanismo”, de 1958. De modo geral, o texto discute a relação do erotismo e da estética no cinema. Para ele, “o cinema sempre procurou exprimir o prazer físico ligado ao amor e é prvável que, refletindo as variações do comportamento social em torno dessa questão durante a primeira metade do século, possa ser considerado como um dos testemunhos do anseio humano por concepções morais mais adaptadas à vida moderna”.Toda a expressão erótica no cinema começou com o beijo de John Rice e Mary Irwin, em The Kiss, que lá em meados de 1896 foi taxado de indecente e vulgar. Futuramente, o beijo seria também a causa de censura de filmes em certos países. Daí para frente, o cuidado moral dos diretores definiu a intensidade e calor destas cenas românticas. No início, os beijos eram frios, o casal era filmado à distância e quase sem proximidade. As bocas se encostaram, mas permaneceram fechadas, para aos poucos ficarem entreabertas e imóveis. Numa das mais belas passagens, Paulo Emílio conta que “a cabeça da mulher derrubada para trás foi uma inovação dinamarquesa que causou sensação”, inaugurando o movimento no beijo.
Nas origens do cinema, a maquiagem foi produzida para diminuir a boca dos atores, afinal, não havia diálogos e a expressividade refletia-se nos olhares e no corpo. Com o beijo, esta técnica passou a enfatizar os lábios, com brilhos e batons, que faziam contraste no preto-e-branco oferecido pela película. Agora a estética e técnica trabalhavam juntas para produzir o erótico. E assim, o beijo deixou de ser suficiente e novas relações do corpo precisaram ser construídas e desenvolvidas.
Sorte a nossa, que podemos apreciar diversas expressões do erótico pelas mãos e olhos de tantos diretores, como Fellini, em La Dolce Vita, da foto lá de cima. Impossível não lembrar da última seqüência de Cinema Paradiso, do diretor Giuseppe Tornatore, com a maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone.
Paulo Emílio não para por aí. Desenvolve toda a relação da moralidade, do pecado e da virtude num belo artigo, que termina invocando a frase de André Malraux, escritor estudioso francês: “Trata-se de integrar o erotismo na vida sem que perca a força que devia ao pecado”. O texto na íntegra está no livro Crítica de Cinema no Suplemento Literário, volume 1, Paz e Terra.
“E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma idéia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume - quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: -’Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!’ “
Semana pós-Festival de Berlim com premiações brasileiras. O interessante Tropa de Elite, de José Padilha, está na ponta da língua e a um clique de todos. Sendo assim, nada melhor do que abrir espaço, com tapete vermelho, para outro produto da nossa cinematografia, assinado por Sandra Kogut. Mutum, que estreou nos cinemas no final do ano passado, é baseado na obra Campo Geral, de Guimarães Rosa e conta a história de Tiago, um menino que vive em uma cidade de interior com a família.
O filme, que participou do Festival do Rio, de Toronto, Cannes e outros, não possui cenas em estúdio e as atuações são naturalistas. Segundo a própria diretora, a maioria das pessoas que atua no filme não são profissionais e nunca foram ao cinema. Os meninos, Tiago (Tiago da Silva Mariz) e Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso), foram selecionados depois de uma longa busca, entre crianças das escolas do norte de Minas. A preparação de atores conseguiu criar entre eles uma atmosfera fraterna e harmoniosa e construir um núcleo familiar que muito se aproxima do documental. Preferiram inclusive manter o nome verdadeiro das crianças nos personagens. Afinal, o filme é dominado por eles e o restante da família fica (quase) em segundo plano. Impossível não simpatizar com os pequenos e se encantar com a história de Tiago, seus pensamentos não ditos verbalmente, mas descritos pelo silêncio e, em especial, por seus olhares introjetados, perdidos e curiosos. O cuidado com esta expressividade é essencial para tratar da relação do universo infantil com o meio, com a natureza e os conflitos da família, com as perdas e aprendizados. Cada olhar triste, cada lágrima e cada sorriso trocado entre eles nos demonstra o amadurecimento pessoal e a invasão em uma outra camada de observação do mundo. Trata-se de um filme sobre o indivíduo, sensível e não piegas.
A câmera passeia por todo o espaço e pelos personagens. Ela segue-os já no primeiro plano do filme, como se nós espectadores estivesssemos entrando naquela atmosfera, acompanhando os passos do cavalo que passeia pelos campos até chegar na casa. Não há trilha sonora e diálogos contínuos e dispensáveis. Tudo é calculado para produzir o efeito de incomunicabilidade. A fotografia dá conta de maravilhosos planos gerais e enfatiza os primeiros planos como se fossem o olhar de Tiago. E aí surgem os detalhes. Foco no chão seco, de pedra e árido, nas mãos das crianças ou nas bacias e panos utilizados na cozinha.
Todo este mundo saltou das páginas de Guimarães e foi recriado na tela. Com toda a poesia do original. Talvez o projeto tenha dado certo justamente pela coragem da diretora de não se comprometer a transformar palavras em imagens, de ser livre para criar a sua leitura do universo roseano. O filme circulou na Mostra de Tiradentes deste ano e manteve sua platéia vidrada, mesmo com chuva, na praça do cinema.
O texto de Guimarães é marcante por si só. Quem ainda não leu, também está convidado a ver o resultado deste trabalho. E quem já teve oportunidade de fazer uma leitura acurada de Campo Geral, como eu, com um querido professor de literatura no colegial, que sensivelmente fez uma sala inteira se emocionar, agora está convidado a ser espectador deste filme e a usar as lentes de Tiago e Miguilim.
Há quem considere que a tradução do título do novo filme de Joel e Ethan Coen seja problemática. Em inglês, não há espaços para velhos. Na nossa língua, os “velhos” confundiram-se com os “fracos”. A ambiguidade enriquece.
De início uma paisagem sem plantas, com raros animais, seca. Diferente do deserto de Antonioni, em Passageiro- Profissão repórter, as cores desta são pálidas, não contrastam com os personagens, tão áridos quanto a vegetação local. A falta de diálogos e de trilha sonora contribuem para a sensação de isolamento e solidão. Finalmente, é o vermelho púrpura sanguíneo derramado na terra o indicador de vida. E de morte. O enredo, assim como a paisagem, seria típico dos westerns tradicionais. A não ser por alguns aspectos muito relevantes e que fazem o filme ser o que ele é.
A perseguição que envolve os personagens em torno da mala de dinheiro encaminha o conflito do interior para o núcleo urbano (que não raras vezes nos remete às cidades fantasmas dos faroestes antigos). A transição em direção as cidades parece muito pertinente.
Focalizemos agora os personagens que dão vida aos cenários. O xerife (atuação fora de série de Tommy Lee Jones), narrador que abre e conclui o filme é um homem mais velho, cujos valores são diferentes. Ele é a polícia, mas em nenhum momento o vemos empunhando uma arma. Já o homem em fuga, que encontra a mala, tenta defender aquilo que considera sua propriedade, a mala, a família e em última instância, sua própria vida. O dinheiro, logo percebemos, torna-se algo menor com o decorrer do filme. Finalmente, o personagem de Javier Bardem (aplausos para o ator). Seria ele um serial killer, um psicótico qualquer que tenha nascido com o gene da maldade? Creio que isso seria muita ingenuidade para um produto coeniano.
É um homem jovem, às vezes irracional, outras vezes dominado por uma razão e frieza suficientes para fazer em si mesmo uma micro cirurgia ou para criar seus próprios instrumentos para matar. Ele é medonho, tem um olhar alucinado, cabelo indescritível, é cruel. A atuação, considerada caricata poderia ser intencional.
Talvez seja ele a personificação da insanidade da violência desmedida da sociedade contemporânea. Uma violência tão personificada no nosso dia- a- dia, que nos esquecemos de sua origem e a vemos tal qual uma entidade. Interessante pensar no jogo proposto pelo personagem. Agora, vida e morte são definidas em um cara ou coroa cuja decisão é muito menos do acaso e muito mais da posição de quem joga. O limite da probabilidade não mais existe. Além de tudo, é impossível não se assustar durante o filme. A perseguição gera ansiedade, claustrofobia. O público sente-se encurralado. E muito disso é causado pelo medo. Nem é preciso discorrer sobre a relação entre medo e o tema até agora discutido.
A violência é fruto de uma história, de um contexto, de relações sociais. Mesmo assim, há momentos em que nos parece inexplicável, fora de controle e sem solução. Nos sentimos fracos diante dela, e porque não? Basta lembrar de casos de ataques em universidades e escolas norte americanas, nos cinemas e shoppings de São Paulo, nos seqüestros sem resgate. Ou nas mortes nos faróis da cidade, em que o assaltado recebe um tiro aparentemente sem motivo.
Onde os Fracos Não Tem Vez faz uma análise da violência como ela é hoje. E do medo irracional difundido. A fotografia fala muito mais do que mostra, os diálogos são densos e difíceis de absorver, e o tema é muito mais universal do que uma simples brincadeira de gato e rato no interior dos Estados Unidos.
Não creio que esta seja a leitura mais acertada, ou se existe uma visão correta e outra errada. Proponho aqui apenas refletir, por uma outra lente, sobre este filme e este personagem intrigante.
****
O final de semana merece um comentário. Tropa de Elite, de José Padilha, venceu o Festival de Berlim, feito aqui conseguido anteriormente apenas por Central do Brasil, de Walter Salles. Apesar de ter militado durante um ano em favor do filme e defendendo-o com unhas e dentes, não sei merecia tão alto prêmio. Mas quem sou eu para duvidar de Costa Gravas e companhia…De qualquer forma, meus parabéns para a cinematografia brasileira. No entanto, gostaria de enfatizar minha felicidade com a visibilidade de Mutum, de Sandra Kogut, no festival. Ele merece mais do que uma nota de rodapé, logo, aguardem.
Às vezes, todos os filmes interessantes se acabam. Ou melhor, somos nós que acabamos com eles, um a um. Sem sobrar em nenhuma sala algo inédito. Nestas horas, temos duas opções. Correr para as prateleiras, o que é sempre bom, ou aguardar a novra safra invadir os cinemas. Neste caso, seguem-se aqui as sugestões de boas estréias para fevereiro. É claro que muita coisa vai rolar, mas escolhas sejam feitas, a seleção abaixo me parece muito interessante.
Hoje mesmo estréia o premiado- e indicado ao Oscar (para melhor ator, filme, diretor, direção de arte, fotografia, edição, edição de som e roteiro adaptado)- Sangue Negro, do diretor Paul Thomas Anderson, de Magnólia (1999). Baseado no livro Oil!, de Upton Sinclair, narra a história de um homem da indústria petrolífera no Texas dos anos 20, encarnado pelo sempre excelente Daniel Day-Lewis. O filme promete entrar para a lista dos melhores filmes do cinema, comparado a importância de marcos como Cidadão Kane (1941), olha a responsabilidade.
Entre os filmes latinos (apesar de se tratar de uma co-produção Franco-Espanhola e Argentina), chega aos cinemas o drama XXY, longa de estréia da diretora Lúcia Puenzo. A anomalia cromossômica que dá título ao filme fala de diferenças, conflitos da adolescência, tabus e relações sociais. Como quase sempre ocorre em filmes argentinos, Ricardo Darín está por lá. para quem não se lembra, esteve nas telas em O Filho da Noiva (2001), Nove Rainhas (2000) e tantos outros.
Os Indomáveis, refilmagem de Galante e Sanguinário, é mais um para a lista de faroestes. Russel Crowe e Christian Bale protagonizam o longa sobre gangues rivais, bandidos e xerifes. Elementos clássicos do gênero surgem, mas dizem por aí que são sobrepostos à riqueza dos personagens. Nada melhor do que ver para conferir o trabalho de James Mangold, o mesmo de Johnny e June (2005) e Garota Interrompida (1999).
Para aqueles que gostam de documentários, é interessante dar uma passada pelo polêmico Michael Moore. Desta vez, Sicko-$O$ Saúde ataca o sistema de saúde, em especial no contexto da administração de George W. Bush.
Já quem se penitencia por ter perdido a Mostra de Cinema de São Paulo deste ano, há boas estréias agora. A começar por Persépolis, que conta a vida de uma jovem iraniana durante a Revolução Islâmica. Aclamado pelo público da mostra, a animação, diferente daquelas da Pixar e afins, é baseada nos quadrinhos e na biografia de Marjane Satrapi.
Minhas maiores apostas vão agradar quem gosta de ver o cinema falando sobre o cinema. Com a mesma proposta de Paris, Eu te amo (2006), 35 diretores foram convidados para produzir os 33 curtas de Cada Um Com Seu Cinema. Segure-se para a lista…os irmãos Coen, David Cronenberg, Gus Van Sant (todos estes com filmes em cartaz no Brasil ou quentes para estrear), Wim Wenders, Abbas Kiarostami, Amos Gitai, Lars Von Trier, Roman Polanski, Manoel de Oliveira, Takeshi Kitano, Wong Kar-Wai e outros, inclusive o brasileiro Walter Salles. O filme é comemorativo ao aniversário de 60 anos do Festival de Cannes. É ou não é uma boa pedida?
Num futuro não muito distante estaremos todos dentro das salas apreciando estas jóinhas que estão por vir.

Aperitivo

Café, bolachas, amendoim, refrigerante, salgadinho, pipoca….Este é um aperitivo para o próximo post…Escolham o acompanhamento e assistam o vídeo sugerido aqui.

Turner Classic Movie. trata-se de uma bela montagem, com filmes muito bons, outros nem tanto, mas de uma forma ou de outra, todos marcaram a história do cinema. A música me lembrou a trilha sonora (e também narradora- no meu ponto de vista) do filme Nós que aqui estamos, por vós esperamos (1998), de Marcelo Masagão, um dos meus filmes preferidos e que vai merecer tratamento especial por aqui.

O Suspeito é um filme que vai sair das salas tão silenciosamente quanto entrou. Com cara de filme-hollywood, conta com boas atuações de Meryl Streep e Reese Whiterspoon, não possui sacadas estéticas, trabalha com a grande escala das mega-produções e com a câmera previsível, que não impedem a dissussão sobre uma temática inquietante. E é por isso que ele vale a pena.

Um egípcio, radicado nos Estados Unidos há mais de 20 anos, torna-se o principal suspeito de participar de um grupo terrorista. Ele é pego pelo governo estado-unidense (detalhe: fora deste terrritório, já que não existe tortura nos Estados Unidos, como afirma a personagem de Meryl Streep) e forçado a falar. Daí, seguem-se torturas, exclusão de registros, numa ficção denúncia que mostra o rascunho do que órgãos de inteligência são capazes. Enquanto isso, sua mulher tenta articular-se com políticos para descobrir seu paradeiro. Ao mesmo tempo, conhecemos a impossibilidade de concretização do amor entre dois jovens, obviamente relacionados a prisão do egípcio. O diretor soube explorar bem a opção narrativa de intercalar duas histórias, em tempos iguais e espaços diferentes que convergem no final, enriquecendo a análise do tema por mais de um ponto de vista.
Jake Gyllenhall, em sua ótima e natural atuação, faz o papel de um atormentado agente da CIA que, entre um copo e outro, decide agir, em um misto de alívio de culpa e de contrariedade às estruturas do intrincado sistema de controle do governo. A proposta do filme, muito mais do que discutir sobre o preconceito e o medo que surgiram após o 11 de setembro nos EUA, é colocar em questão o poder ilimitado do Estado.
O Estado de Sítio foi o mecanismo criado pela Assembléia Constituinte Francesa para a suspensão de direitos e leis. O que observamos na política contemporânea (e é apresentado no filme) é a suposta existência de um Estado de Direito que reconhece constitucionalmente direitos sociais, políticos e civis, mas que também permite, não só a eliminação destas garantias, como a utilização da violência. Este é o Estado de Exceção. Em Teses sobre a história, Walter Benjamin discute como este regime de exceção se tornou regra, em especial no Estado de Direito burguês. Esta é a idéia que percorre o filósofo italiano Giorgio Agamben com o livro que escreveu a partir das atitudes de combate ao terrorismo nos Estados Unidos de 2001 (vale a pena ler!), em especial com o Patriotic Act, ato que oficializa tudo o que vemos retratado no filme de Gavin Hood. O Estado se apodera da norma e tem a garantia de se utilizar da força, da violência para fazer valer sua vontade. Tudo em nome da segurança nacional- claro.

O filme trata do poder, de jogos de forças políticas, preconceitos e questiona o poder estatal, a atual política de segurança e real existência dos direitos civis. O filme pode até ser fraco, mas merece ser visto pelo fato de levantar esta discussão.

Para se aprofundar no tema, uma opção interessante e densa é o documentário Gitmo- the new rules of war (2005), de Erik Gandini e Tarik Saleh, sobre a prisão na base de Guantánamo. Outro filme é o Caminho para Guantánamo (2005), baseado em fatos reais, conta como jovens ingleses de descendência paquistanesa são presos e acabam na base naval americana em Cuba. Já mais superficial, porém não ruim, é o nacional Tropa de Elite e a criação do BOPE como a institucionalização do Estado de Exceção.

« Novos Posts - Postagens Antigas »