
Não é só de cinema que se vive a vida. Por forças maiores, faz uma semana que não vejo um filme sequer. Sou uma cinéfila admitida e neste segundo estou tendo calafrios e me sinto enjoada- imagino que sejam de abstinência.
Redescobri neste tempo, porém, minha outra grande paixão. Aprendi desde miúda, com minha mãe, a também ser rato de biblioteca. Não que eu tenha abandonado e trocado o outro vício por este e vice-versa, mas fazia um bom tempo que não lia romances e peças com tanto gosto, já que livros teóricos de socilogoia, cinema, antropologia, comunicação e política me dominavam e me consumiam.
Engoli umas boas páginas esta semana. Comecei com José Saramago, um português com jeitinho mal humorado que escreve com formas de crescer inveja em qualquer um. Agora ele está famoso pela adaptação que o brasileiro Fernando Meirelles fez do seu Ensaio Sobre a Cegueira para o cinema, mas não é deste assunto que venho falar. Em As Intermitências da Morte, livro de 2005, Saramago conta como “no dia seguinte, ninguém morreu” por um capricho da Morte- ou da morte, com letra minúscula (só lendo para entender essa…). Deste enredo um tanto surrealista, encontramos situações tipicamente humanas e vemos retratadas atitudes do Estado, da Igreja, das máfias e pequenas e grandes corrupções com muita ironia e sarcasmo. Eu tenho a sensação de que Saramago é um discípulo distante de Machado de Assis- e se assim fosse, ousaria dizer que a criatura saiu melhor ainda do que o criador.
Delírios à parte, depois de trombar com Hélio Oiticica, Lygia Clark e sua turma nas artes plásticas; com Gil, Caetano, Tom Zé e toda a Tropicália; com Glauber, Sganzerla e companhia inventando o Cinema Novo, Marginal e etc., pensei que seria bom voltar ao começo de tudo com nossos modernistas. Foi aí que pesquei da prateleira O Rei da Vela, peça de Oswald de Andrade. Hoje vejo que os modernistas foram muito mais influentes na nossa cultura do que eu poderia ter previsto na época em que tive minhas experiências anteriores de literatura moderna, limitada aos clássicos do tipo Macunaíma.
Agora, entrei no fantástico mundo de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Os Aurelianos, Josés Arcadios, Remédios e Úrsula me sugaram para uma Macondo de tal forma que não gostaria de sair de lá tão cedo e mesmo assim tenho ânsias de ler o livro. Deste, prefiro não falar muito. Deixarei essa para o própiro Garcia Marques, em maravilhoso trecho da obra:
Ao ser destampado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:
- É o maior diamante do mundo.
- Não- corrigiu o cigano- É gelo.
Depois dessa, cá entre nós, preciso dizer mais algum coisa?
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