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Clint Eastwood é um dos maiores diretores americanos. Seus filmes são sempre polêmicos, nunca datados e exalam a necessidade de defender um ponto de vista objetivo, claro e sem meias palavras. Seu potencial como diretor exprime-se, por exemplo, nos maravilhosos planos que constrói. Em “Invictus”, seu mais recente longa, não seria diferente. Em diversos momentos é possível notar a intecional divisão entre brancos e negros dentro dos planos, afinal trata-se do contexto próximo ao apartheid: em um plano, os seguranças de terno, no contra-plano, os negros do “clã”. Depois, a construção se repete, embora com aproximação, colocando os primeiros à direita do plano e os últimos à esquerda. Ao final, as duas cores de mãos vitoriosas no troféu. E assim por diante.

Lendo análises sobre o filme notei a frequência com que todos os críticos utilizavam-se de uma mesma cena para discutir “Invictus”, os erros e acertos de Clint. Tudo começou na Ilustrada (29/01/2010), quando Inácio Araújo e André Barcinski foram capa do caderno da Folha de S. Paulo, cada qual com uma posição. E daí Inácio colocava: “Em troca, podemos lembrar a cena de abertura, num campo de rúgbi tomado por brancos que passa para o outro lado da rua, onde meninos negros jogam futebol como exemplo de como as imagens podem dar conta de determinada situação.” Enquanto isso, no outro canto da página, Barcinski não media palavras para acusar o diretor (e o filme) de melodramático, datado e pobre. Interessada com a semelhança, de utilização de um mesmo trecho para duas reações críticas tão distintas, continuei pesquisando outros textos. E, ironicamente, encontrei outros comentários a respeito dela. Vamos lá.

Luiz Zanin e Heitor Augusto a colocam como uma síntese. O crítico do Estado de S. Paulo descreveu assim: “Nas primeiras cenas, vê-se um campo onde jogadores brancos treinam rúgbi. A câmera se desloca e, do outro lado, meninos negros jogam futebol. Os dois campos são divididos por uma estrada. Por ela, passa uma comitiva, enquanto se anuncia: Nelson Mandela foi libertado. No campo de rúgbi um atleta comenta com outro: ‘Guarde bem esta data. Foi o dia em que nosso país acabou.’ Toda a África do Sul do apartheid está aí. São as cenas iniciais de Invictus, um dos melhores filmes já realizados tendo um esporte como ponto de partida e toda a realidade de um país como ponto de chegada.”

Heitor Augusto, do Cineclick, concordando com seu colega, defende que “Clint Eastwood é tão genial que, só com a sequência inicial de Invictus, explica cinematograficamente o bê-a-bá da situação política pós-apartheid na África do Sul”. Por sua vez, Isabela Boscov, da Veja, assim como Inácio, aponta que o filme pode, para um desavisado, ter algumas simplificações e clichês. E para isso, descreve a tal cena: “uma sequência opõe duas cenas cotidianas na África do Sul. De um lado de uma cerca, uma equipe de rúgbi treina com técnico, uniformes e campo apropriado – uma equipe de colégio, nem rica nem profissional. Ainda assim, ela poderia estar em outro planeta que não o dos meninos negros que, do outro lado da cerca, jogam futebol de chinelos, na poeira. Clichês sobre desigualdade e injustiça imediatamente vêm à mente. E desfazem-se com igual rapidez quando o diretor Clint Eastwood abre o foco e situa essas cenas contrastantes.”

Agora, retomo o texto de André Barcinski, publicado na Folha junto com a análise de Inácio Araújo. Em suas próprias palavras, a tal cena figurou assim: “Na sequência de abertura do filme, vemos um lindo gramado, onde meninos brancos, bem nutridos e trajando velos uniformes, treinam rúgbi. Uma estrada de terra separa o lugar de um terreno baldio esburacado, onde crianças negras e maltrapilhas jogam futebol. Que Eastwood tenha escolhido uma cena tão óbvia para abrir o filme diz muito sobre seu cinema.”

É dispensável aqui discutir a diferença de pontos de vista. Mas, como leitora assídua das colunas críticas e estudante de análise fílmica, o que me atraiu foi justamente o comentário frequente de uma mesma cena- e não me lembro de outro exemplo de uma cena de filme recente que tenha sucitado tantos comentários. Poderia pensar que nossos críticos estão produzindo textos cada vez mais pasteurizados -o que não deixa de ser uma verdade, mas não se enquadra neste exemplo-, reproduzindo releases e dados de assessoria de imprensa. Mas aí, tudo fica claro quando vem à lembrança que estamos falando do cinema de Clint. Nada mais, nada menos do que Clint e do poder de suas imagens.

Pouco se ouvia falar sobre Jean Vigo até o recente lançamento da Caixa Paulo Emílio, pela Cosac Naif- que apesar de ser sobre a obra do cineasta francês, leva o nome do autor dos livros. Um deles é uma deliciosa biografia do jovem diretor que morreu ainda jovem, aos 29 anos. A narrativa lembra ora um livro fronteiriço com o novo jornalismo, ora um diário, dadas as transcrições abundantes do diário do próprio Vigo. Também é repleto de trechos de cartas, decupagens e descrições de cenas inéditas dos filmes, compondo quase um making of literário. O denso trabalho de pesquisa de Paulo Emílio Salles Gomes, combinado com todo o seu estilo crítico, debruça-se ainda sobre a história do pai do jovem cineasta, no capítulo introdutório deste mesmo livro.

Para a nossa felicidade, o estudo foi publicado também na íntegra em “Vigo, Vulgo Almereyda”, o outro livro que compõe a caixa. E engana-se quem considera a obra sobre Almereyda dispensável. Somente com a leitura do capítulo no livro sobre Jean Vigo já dá para ficar com um gostinho de quero mais. A história do militante anarquista Almereyda, assassinado na prisão, foi fundamental na criação do pequeno Vigo e esclarece muito da curta obra do diretor.

Sobre isso, talvez o melhor seja citar o próprio Paulo Emílio, em tempo: “Se fosse preciso escolher para uma antologia uma única seqüência da obra de Vigo, representativa de seu estilo, esta deveria ser a abertura de Zéro de Conduite. Três procedimentos típicos de sua criação aí se encontram. Inicialmente, uma realidade modesta tratada em detalhe (uma cabine de terceira classe, escolares de uniforme batido e pernas finas), que culminará na fantasia (a atmosfera enevoada da cabine) passando pelo extravagante (os objetos e as brincadeiras dos meninos).”

Vigo, o filho, foi muito criticado na época em que produzia e resgatado anos depois. Agora, jovens aficcionados por cinema poderão ter contato com ele, enquanto os mais velhos poderão assistir novamente algumas de suas mais interessantes obras. Na breve filmografia de Jean Vigo destaca-se “Zéro de Conduite”, crítico e irônico, representa o ponto de vista político do autor. Já “A Propos de Nice” faz trucagens no melhor estilo Meliés e, ao mesmo tempo, experimentações que esbarram nas vanguardas. Os DVDs da caixa não só apresentam a filmografia, como trazem entrevistas com estudiosos e críticos. Para ver e rever, como diria um certo crítico de cinema cearense.

“No Meu Lugar”, longa-metragem de estreia de Eduardo Valente, parece ser um filho único entre tantos outros da filmografia nacional contemporânea. Diferente de outros filmes produzidos nos últimos anos e que se debruçaram sobre a temática da violência urbana, Valente optou por inovar. Na contramão de filmes como “Tropa de Elite” (2007) e “Cidade de Deus” (2002), “No Meu Lugar” não ecoa a linguagem televisiva, com planos curtos, cenas aceleradas e cores saturadas, entre outras características que fizeram destes filmes se tornarem verdadeiros hits.

O roteiro, assinado pelo diretor em parceria com Felipe Bragança, de “O Céu de Suely” (2006), apresenta três núcleos que coincidem com microcosmos sociais que vivem as violências das quais se fala: uma família de classe média abalada por um crime; um policial em crise por uma ação desmedida, sua filha e amigos; e um jovem casal pobre, ela empregada da família e ele um entregador de mercado.

Tal qual em “Babel” (2006), um fato comum alinhava todas estas histórias, mas diferente do filme de Iñárritu, o brasileiro opta por outro caminho. Assim como no curta “Um Sol Alaranjado” (2001), premiado em Cannes, Valente parece suspender o tempo em prol da imagem e, mais do que isso, dos seus personagens, que nada mais são do que representações de pessoas comuns. Tanto no curta quanto no longa, há uma imensa melancolia de viver, seja por sofrer pelos erros e dores do passado, pela falta de uma perspectiva de vida melhor ou pela rotina repetitiva que nos torna inertes até mesmo à morte. Em “No Meu Lugar”, apenas o tio do entregador do mercado e a criança da família de classe média dão a impressão de romper com essa angústia. Talvez pela experiência de já ter vivido ou pela sede de chegar lá. Frisa-se aqui o termo “impressão”. Em texto da Revista Cinética essa tal melancolia dá a impressão de se concentrar no Rio de Janeiro. Ou talvez no Brasil. Na verdade, este mal-estar é universal e está muito mais relacionado a um sentimento de desconforto de época.

Nesta história ficcional, bem como na nossa, não há mocinhos e bandidos. Somos todos vítimas da nossa própria evolução e a montagem contribui para que cada núcleo se desenvolva no seu tempo: o casal de jovens vive o presente; o policial, os meses seguintes ao incidente que desenrola o enredo; e a família, o futuro. A captação de som às vezes incomoda e o tema da trilha sonora chega a ser um pouco repetitivo. Um fator interessante é que se trata de um filme sobre violência que omite justamente estas cenas, revelando ainda mais os dramas pessoais. Mas o destaque fica realmente para os longos silêncios – sonoros e imagéticos (como nos efeitos de fade out longo, escuro e silencioso)- que chegam a causar desconforto no espectador. Dar tempo ao tempo. Esta e outras características fazem deste jovem diretor um “quase marginal” na filmografia nacional. Mas, disso ele não pode se queixar, afinal a inovação e a resistência do grande público sempre andaram de mãos dadas. Quem quiser que abrace esta causa e experimente o resultado. Sem juízo de valor, seja benvindo ao “cinema de guerrilha”, tal como diria o próprio diretor.

“Anticristo”, obra mais recente de Lars Von Trier, é um filme provocador. Seja pelo uso de violência, nunca gratuita e muitas vezes muito mais agressiva simbolicamente do que em sua manifestação corpórea; seja pela temática polêmica ou por romper com valores morais de quem o assiste. Por estes motivos, um espectador desavisado pode criar um sentimento ambíguo em relação ao filme, na medida em que a qualidade técnica e a densidade do argumento demoram a suplantar o incômodo inicial.

O choque se dá já no início, quando o público é surpreendido por um prólogo dramático e poético. Hiperestetizado, usa o artifício de um preto e branco em tons quase azulados, acompanhado de uma câmera lentíssima que capta cada detalhe da pele dos atores e a textura de cada objeto em cena. Anuncia-se assim a tragédia da morte de uma criança enquanto os pais entram em êxtase sexual. O destaque na sequência fica sempre na mãe, enquadrada frontalmente em quase todas as cenas.

Este fato será o resultado de uma destruição que já ocorria com o casal, que se isola na floresta do Éden, em referência clara aos textos bíblicos de Adão e Eva. Ela (Charlotte Gainsborug), historiadora, descobre-se má enquanto pesquisava sobre o feminicídio. Sua identificação com as mulheres da Idade Média, consideradas bruxas más será levada ao extremo com a morte da criança, culminando na violência física que extirpa sua marca feminina, o clitóris. Enquanto isso, Ele (William Dafoe) tenta reprimir o espírito quase selvagem Dela por meio de uma excessiva racionalidade, subjulgando-a pela terapia. O filme desenvolve-se com dualismos como este, que opõem razão e natureza, homem e mulher, bom e mau, mas sem simplificações cartesianas.

A atmosfera lúgubre fica tensa, a cada bolinha de carvalho que castiga a casa no Éden como uma chuva de granizo. Apesar do extremo realismo de algumas sequências, como nas de violência, Von Trier cansa de inserir elementos imagéticos e discursivos para simbolizar a insanidade da situação. “Anticristo” não poderia ser diferente. Em seus filmes anteriores, como no musical “Dançando no Escuro” (2000), ou no humor de “O Grande Chefe” (2006), na tensão dramática de “Dogville” (1998), os gêneros cinematográficos valeram como suportes para Von Trier experimentar a miséria humana. Agora, com o terror, assim como em outras ocasiões, ele acertou.

Um poema de imagens

Daniel, cineasta de “O Pão dos Anjos”, dá seus primeiros passos no cinema. E,inevitavelmente, carrega consigo o peso de ser filho de outro diretor, Andrea Tonacci. Isso, no entanto, não impediu que ele criasse um filme autêntico e autoral. No seu curta-metragem ele recorre ao que o cinema tem de mais poderoso: falar por meio de imagens. Não há diálogos, os efeitos e a trilha sonora são praticamente inexistentes e as vozes dos personagens ficam em off, declamando versos que refletem os sentimentos do casal de protagonistas.

Desde o início, há presença de um foco desajustado que produz uma profusão de cores e imagens difusas. Com esse efeito, encobre-se a intitmidade amorosa vivida por Ele e Ela com uma atmosfera delicada e nada vulgar. Outro resultado dessa opção estética é a concretização da nossa capacidade de relembrar fatos. Assim como a inquieta câmera, nossa memória também reconstrói o passado com dificuldade, cheio de vultos e silhuetas que ficam impressos na nossa lembrança. Costurando essa belas imagens há muitos silêncios, representando o estado de reflexão e imersão em si mesmos em que estão os personagens.

Para produzir toda essa poesia, o filme se inspira em Manoel de Barros, o poeta dos textos de doce de côco, como disse Guimarães Rosa. Coincidência ou não, o curta também guarda uma leve semelhança com “Asas do Desejo”, de Win Wenders, na medida em que retrata um estranhamento de estar no mundo e de medir a importância das coisas pelo encantamento por elas gerado. O resultado é um filme metafórico, belo e sensível. Daniel, 24 anos, já brilhou como produtor de outros filmes premiados e agora empresta seu talento especialmente ao seu primeiro trabalho, inaugurando uma obra com personalidade.

“O Pão dos Anjos”, de Daniel Tonacci.
Brasil (SP)
13´, cor, 35 mm, 2009

Texto publicado originalmente no suplemento Crítica Curta, do 20° Curta Kinoforum

Trópicos tristes

“Dentro de algumas centenas de anos, neste mesmo lugar, outro viajante, tão desesperado quanto eu, pranteará o desaparecimento do que eu poderia ter visto e que me escapou. Vítima de uma dupla inaptidão, tudo o que percebo me fere e reprovo-me em permanência não olhar o suficiente.” (Tristes Trópicos)

Com o perdão do trocadilho, guardo aqui comigo o espaço para uma pequena homenagem a este grande pensador. Claude Lévi-Strauss morreu, no último sábado, dia 31 de outubro, às vésperas de completar 101 anos e já deixa saudade. Ele, que tanto me encantou com as mitologias de O Cru e O Cozido e que me seduziu com títulos como Do Mel às Cinzas e Tristes Trópicos, obra prima que devorei com gosto. A propósito da saudade, fica abaixo uma tocante passagem, de Saudades de São Paulo.

“Se, no título de um livro recente, apliquei ao Brasil (e a São Paulo) o termo ‘saudade’, não foi por lamento de não mais estar lá. De nada me serviria lamentar o que após tantos anos não reencontraria. Eu evocava, antes, aquele aperto no coração que sentimos quando, ao relembrar ou rever certos lugares, somos penetrados pela evidência de que não há nada no mundo de permanente nem de estável em que possamos nos apoiar.”

De curta em curta…

Durante oito dias fiquei literalmente imersa em curtas-metragens. Acompanhada algumas vezes, sozinha em outras. Entre a correria de atravessar a cidade para conseguir pegar uma ou duas sessões em sequência, pensei muito sobre o fazer cinematográfico. Para quem teve essa mesma rotina que eu ou para quem apenas apreciou alguns dos mais de 400 curtas, o saldo da 20a edição do Festival Internacional de Curtas de São Paulo (Curta Kinoforum) foi altamente positivo. A sensação de correr de um cinema para o outro, de assistir e desconstruir cada filme em poucos minutos e depois fazer surgir um texto em pouquíssimo tempo é única. E depois, ver o meu trabalho materializado no tablóide e comentado pelos organizadores da oficina foi, no mínimo, gratificante.

Quem perdeu o Festival ainda pode assistir aos filmes disponibilizados online (aqui) e que concorreram ao prêmio Porta Curtas. Os filmes vencedores foram “Divino, De repente” e “Ana Beatriz“. Ambos também apareceram na lista de curtas mais votados pelo público, assim como outros que não estão na internet. Logo mais apareço para comentá-los.

É isso que eu quero para a vida. Respirar, ver, cheirar, tatear e sentir o gosto do cinema a cada dia. As minhas resenhas podem ser lidas no tablóide do Festival, ou aqui, onde disponibilizarei em breve. E daqui pra frente, aguardem meus textos no Blog do Crítica Curta. Benvindos ao mundo do curta-metragem.

Esse ano o Crítica Curta será diferente, como diz o próprio site do Kinoforum. Nesta edição, todos os interessados em crítica cinematográfica puderam participar, diferente dos anos anteriores em que apenas alunos de audiovisual e comunicação podiam se inscrever. Os candidatos participaram de uma oficina no MIS, uma com Sérgio Rizzo e outra com Christian Petermann e depois enviaram um texto sobre um dos curtas exibidos. Os selecionados, escolhidos pelo editor do tablóide do festival, jornalista e crítico de cinema Sérgio Rizzo, escreverão para o material de publicação do 20° Curta Kinoforum-Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 20 e 28 de agosto. Outra novidade é que a autora deste blog foi uma das selecionadas, com o texto abaixo, para fazer parte da equipe de 27 “críticos”.


Arabesco recorre ao fantástico universo de Borges e Poe

Curta de Eliane Caffé antecipa pistas sobre longas da diretora

A paulistana Eliane Caffé tem uma breve, mas reconhecida carreira como cineasta. Começou a produzir em meados da década de 80, assim como Tata Amaral e Beto Brant, e já no seu segundo curta-metragem, a diretora, roteirista e psicóloga por formação, deixava sinais do que seriam alguns elementos dos seus longas.

Em Arabesco (1990), dois assaltantes, vividos por Jonas Bloch e Alfredo Damiano, invadem um escritório sem portas e janelas, que guarda manuscritos e antiguidades, e no qual coisas misteriosas acontecem. Inconformados com a inexistência de um cofre, começam a vasculhar tudo na inútil busca por uma saída.

O filme foi produzido em pleno governo Collor, momento de sufocamento econômico-social, gerado pelo confisco de bens, e de início da crise de produção cinematográfica, com a extinção da Embrafilme. Não havia muitas saídas para a população. Neste sentido, Arabesco representa o contexto histórico do país e seus personagens encarnam duas soluções, o escapismo individual ou uma tentativa de acomodação.

O filme, porém, ultrapassa esta leitura. Como a própria palavra indica, arabesco é um conjunto de elementos que se repetem em um padrão infinito. Assim também é o único cenário do filme. Apesar de parecer restrita àquele ambiente claustrofóbico, a sala está em um espaço-tempo circular e sem fim. Este mundo fantástico se assemelha às obras de Jorge Luiz Borges, como no conto sobre a interminável Biblioteca de Babel. Impossível não lembrar também da Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, na medida em que um dos ladrões começa a se identificar com aquele estranho lugar. Assim como Roderick Usher representa a decadência da sua casa, o personagem de Jonas Bloch se afetua a certos objetos como a um astrolábio, reconhece em um mural a fotografia de uma mão praticamente igual à sua e, em desenhos, a situação que está vivendo. Suas expressões são marcadas pelo medo de que alguma verdade venha à tona, tal como no conto de Poe, também carregado de símbolos e oposições entre o real e a ficção.

Estes elementos são retomados na obra de Eliane Caffé, em filmes com registros mais realistas e menos fantasiosos. Seu curta Caligrama (1995) discute a situação dos moradores de rua, os “sem-lugar” da sociedade. Kenoma (1998), seu primeiro longa, foi inspirado em Ruínas Circulares, de Borges, e fala sobre a criação de uma máquina que funcione em moto-contínuo, mantendo um eterno movimento em oposição ao estagnado pequeno povoado que dá nome ao filme. Já em Narradores de Javé (2003), a população de uma cidade prestes a ser devastada pela construção de uma hidrelétrica decide documentar suas histórias, para que as memórias se preservassem, mesmo que o território se perdesse. Arabesco antecipa a problemática tempo-espacial em apenas 15 minutos, arrebatando diversos prêmios, entre eles cinco troféus no Festival de Gramado de 1990.

ARABESCO, de Eliane Caffé.
Brasil, Fic, cor, 35 mm, 1990

a_festa_da_menina_mortaUma temática comum em diversas obras do cinema nacional contemporâneo é a vida urbana e a relação asfalto-morro. Fora do eixo Rio-São Paulo, destaca-se a produção sobre o chamado “Brasil profundo”, do qual o sertão é quase sempre o protagonista. Nesta busca pela identidade brasileira, a filmografia nacional ganha agora A Festa da Menina Morta, obra centrada na região Norte, especificamente na Amazônia.

Santinho, representado de forma naturalista por Daniel de Oliveira em uma de suas melhores atuações, é uma espécie de ídolo messiânico, um Antônio Conselheiro de uma pequena comunidade ribeirinha do interior do norte brasileiro. Foi santificado ainda criança, quando um cachorro entregou-lhe os restos do vestido de uma menina desaparecida. Desde então ele recebe tratamentos especiais pela sua suposta divindade e, em homenagem à Menina Morta, é feita uma festa anual, que já acontece há vinte anos. Nesta ocasião, ele divulga as previsões feitas pela Menina para o ano.

O personagem de Santinho, no entanto, é carregado de ambiguidade, a começar pela sua androgenia. É delicado e agressivo. Frágil e bruto. É luxurioso e profano, apesar de ser considerado superior pelo seu milagre. Assim como ele, a adoração pela Menina também é feita em um registro de dualismo. Ao mesmo tempo em que há diversos rituais sagrados- como a costura de um manto, coroas de flores, oferendas e banhos- a festa popular se torna espetáculo, quando ganha shows pirotécnicos, musicais e comércio de bebidas. Ao final, o mito começa a ser questionado pelo irmão da menina, Tadeu, que afirma que não houve milagre e que a menina havia realmente desaparecido ou sido morta. O próprio Santinho começa a se dar conta daquilo que construíram para ele. Destaca-se  para esta tomada de consciência  a cena do reencontro entre  filho e mãe, com Cássia Kiss na pele da mãe, e o discurso cheio de dor e humanidade feito por Santinho no final, durante a festa.

Matheus Nachtergaele, ator de filmes como Baixio das Bestas (2007) e Amarelo Manga (2002), teve uma excelente estréia na direção. A inspiração em Cláudio Assis, que assina ambos os filmes citados é evidente, tanto no tema quanto na estética. Há referências ao Cinema Novo, com o uso de uma câmera inconstante e a presença de não-atores. O filme passeia pelo estetismo puro, pelo quase denuncismo, pelo registro dos documentários antropológicos e pela ficção. A fotografia de Lula Carvalho é escura, pesada e sufocante e, combinada ao ritmo lento e arrastado, causa incômodo no espectador. Ambígua também é a impressão do filme que fica no espectador, que fica exausto, mas ao mesmo tempo, permanece atento para compreender todo o folclore e a cultura presentes, manifestações tão longínquas do seu dia a dia nas grandes cidades. A Festa da Menina Morta foi selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes e marcou presença em festivais de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Chicago, Havana e Los Angeles.

Anualmente o BRAFFT – Festival de Cinema Brasileiro de Toronto leva um pouco da multiplicidade cultural brasileira ao Canadá, exibindo as produções cinematográficas nacionais e difundindo o cinema brasileiro para o mundo. Na terceira edição, que ocorrerá entre 4 e 8 de setembro, no Bloor Cinema, podem concorrer documentários e ficções em curta, média ou longa-metragem. Já as animações serão exibidas na UpTo3, mostra paralela exclusiva para este gênero.

Os filmes selecionados pela comissão concorrerão nas categorias de melhor filme, diretor, atriz e de melhor de público. Os vencedores ganharão um certificado, o troféu Golden Maple e prêmios em dinheiro, de quatro mil reais para os curtas, e seis mil para os longas. Fora da mostra competitiva, serão convidados dois filmes do do grande circuito. A curadoria é do jornalista e crítico de cinema Celso Sabadin.

Para participar, é necessário se inscrever até o dia 5 de julho no site e enviar pelo correio uma cópia em DVD do filme, com legendas em inglês. A produção deve ter sido realizada no Brasil ou por co-produção, no exterior, e finalizada nos últimos dois anos. A inscrição é gratuita. Para quem não vai conseguir se entrar no festival este anoo, já pode finalizar seu filme e se preparar para o próximo. Em geral o evento ocorre no segundo semestre.

O BRAFFT, primeira competição de produções exclusivamente brasileiras em solo canadense, dá aos cineastas brasileiros a oportunidade de divulgar seus trabalhos no exterior a custos baixíssimo, já que o único gasto é com o envio das cópias do DVD para a produção. Além disso, é uma plataforma de exibição de seus filmes lado a lado com produções famosas, como Meu Nome Não É Johnny, Não Por Acaso e Querô.

O Festival também oferece, em parceria com a Opy Viagens, um pacote exclusivo para estudantes interessados em trabalhar como voluntários durante o evento. A programação inclui passeios turísticos, trabalho na realização do Festival, palestras com cineastas canadenses e brasileiros e visitas aos estúdios. Ao final o voluntário recebe um certificado pela participação. O BRAFFT é realizado pelo Instituto Cefac e pelas produtoras Puente – Agência de Comunicação, no Brasil, e  a Southern Mirrors, no Canadá.

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