Clint Eastwood é um dos maiores diretores americanos. Seus filmes são sempre polêmicos, nunca datados e exalam a necessidade de defender um ponto de vista objetivo, claro e sem meias palavras. Seu potencial como diretor exprime-se, por exemplo, nos maravilhosos planos que constrói. Em “Invictus”, seu mais recente longa, não seria diferente. Em diversos momentos é possível notar a intecional divisão entre brancos e negros dentro dos planos, afinal trata-se do contexto próximo ao apartheid: em um plano, os seguranças de terno, no contra-plano, os negros do “clã”. Depois, a construção se repete, embora com aproximação, colocando os primeiros à direita do plano e os últimos à esquerda. Ao final, as duas cores de mãos vitoriosas no troféu. E assim por diante.
Lendo análises sobre o filme notei a frequência com que todos os críticos utilizavam-se de uma mesma cena para discutir “Invictus”, os erros e acertos de Clint. Tudo começou na Ilustrada (29/01/2010), quando Inácio Araújo e André Barcinski foram capa do caderno da Folha de S. Paulo, cada qual com uma posição. E daí Inácio colocava: “Em troca, podemos lembrar a cena de abertura, num campo de rúgbi tomado por brancos que passa para o outro lado da rua, onde meninos negros jogam futebol como exemplo de como as imagens podem dar conta de determinada situação.” Enquanto isso, no outro canto da página, Barcinski não media palavras para acusar o diretor (e o filme) de melodramático, datado e pobre. Interessada com a semelhança, de utilização de um mesmo trecho para duas reações críticas tão distintas, continuei pesquisando outros textos. E, ironicamente, encontrei outros comentários a respeito dela. Vamos lá.
Luiz Zanin e Heitor Augusto a colocam como uma síntese. O crítico do Estado de S. Paulo descreveu assim: “Nas primeiras cenas, vê-se um campo onde jogadores brancos treinam rúgbi. A câmera se desloca e, do outro lado, meninos negros jogam futebol. Os dois campos são divididos por uma estrada. Por ela, passa uma comitiva, enquanto se anuncia: Nelson Mandela foi libertado. No campo de rúgbi um atleta comenta com outro: ‘Guarde bem esta data. Foi o dia em que nosso país acabou.’ Toda a África do Sul do apartheid está aí. São as cenas iniciais de Invictus, um dos melhores filmes já realizados tendo um esporte como ponto de partida e toda a realidade de um país como ponto de chegada.”
Já Heitor Augusto, do Cineclick, concordando com seu colega, defende que “Clint Eastwood é tão genial que, só com a sequência inicial de Invictus, explica cinematograficamente o bê-a-bá da situação política pós-apartheid na África do Sul”. Por sua vez, Isabela Boscov, da Veja, assim como Inácio, aponta que o filme pode, para um desavisado, ter algumas simplificações e clichês. E para isso, descreve a tal cena: “uma sequência opõe duas cenas cotidianas na África do Sul. De um lado de uma cerca, uma equipe de rúgbi treina com técnico, uniformes e campo apropriado – uma equipe de colégio, nem rica nem profissional. Ainda assim, ela poderia estar em outro planeta que não o dos meninos negros que, do outro lado da cerca, jogam futebol de chinelos, na poeira. Clichês sobre desigualdade e injustiça imediatamente vêm à mente. E desfazem-se com igual rapidez quando o diretor Clint Eastwood abre o foco e situa essas cenas contrastantes.”
Agora, retomo o texto de André Barcinski, publicado na Folha junto com a análise de Inácio Araújo. Em suas próprias palavras, a tal cena figurou assim: “Na sequência de abertura do filme, vemos um lindo gramado, onde meninos brancos, bem nutridos e trajando velos uniformes, treinam rúgbi. Uma estrada de terra separa o lugar de um terreno baldio esburacado, onde crianças negras e maltrapilhas jogam futebol. Que Eastwood tenha escolhido uma cena tão óbvia para abrir o filme diz muito sobre seu cinema.”
É dispensável aqui discutir a diferença de pontos de vista. Mas, como leitora assídua das colunas críticas e estudante de análise fílmica, o que me atraiu foi justamente o comentário frequente de uma mesma cena- e não me lembro de outro exemplo de uma cena de filme recente que tenha sucitado tantos comentários. Poderia pensar que nossos críticos estão produzindo textos cada vez mais pasteurizados -o que não deixa de ser uma verdade, mas não se enquadra neste exemplo-, reproduzindo releases e dados de assessoria de imprensa. Mas aí, tudo fica claro quando vem à lembrança que estamos falando do cinema de Clint. Nada mais, nada menos do que Clint e do poder de suas imagens.



Uma temática comum em diversas obras do cinema nacional contemporâneo é a vida urbana e a relação asfalto-morro. Fora do eixo Rio-São Paulo, destaca-se a produção sobre o chamado “Brasil profundo”, do qual o sertão é quase sempre o protagonista. Nesta busca pela identidade brasileira, a filmografia nacional ganha agora A Festa da Menina Morta, obra centrada na região Norte, especificamente na Amazônia.
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