Feeds:
Posts
Comentários

Trópicos tristes

“Dentro de algumas centenas de anos, neste mesmo lugar, outro viajante, tão desesperado quanto eu, pranteará o desaparecimento do que eu poderia ter visto e que me escapou. Vítima de uma dupla inaptidão, tudo o que percebo me fere e reprovo-me em permanência não olhar o suficiente.” (Tristes Trópicos)

Com o perdão do trocadilho, guardo aqui comigo o espaço para uma pequena homenagem a este grande pensador. Claude Lévi-Strauss morreu, no último sábado, dia 31 de outubro, às vésperas de completar 101 anos e já deixa saudade. Ele, que tanto me encantou com as mitologias de O Cru e O Cozido e que me seduziu com títulos como Do Mel às Cinzas e Tristes Trópicos, obra prima que devorei com gosto. A propósito da saudade, fica abaixo uma tocante passagem, de Saudades de São Paulo.

“Se, no título de um livro recente, apliquei ao Brasil (e a São Paulo) o termo ‘saudade’, não foi por lamento de não mais estar lá. De nada me serviria lamentar o que após tantos anos não reencontraria. Eu evocava, antes, aquele aperto no coração que sentimos quando, ao relembrar ou rever certos lugares, somos penetrados pela evidência de que não há nada no mundo de permanente nem de estável em que possamos nos apoiar.”

De curta em curta…

Durante oito dias fiquei literalmente imersa em curtas-metragens. Acompanhada algumas vezes, sozinha em outras. Entre a correria de atravessar a cidade para conseguir pegar uma ou duas sessões em sequência, pensei muito sobre o fazer cinematográfico. Para quem teve essa mesma rotina que eu ou para quem apenas apreciou alguns dos mais de 400 curtas, o saldo da 20a edição do Festival Internacional de Curtas de São Paulo (Curta Kinoforum) foi altamente positivo. A sensação de correr de um cinema para o outro, de assistir e desconstruir cada filme em poucos minutos e depois fazer surgir um texto em pouquíssimo tempo é única. E depois, ver o meu trabalho materializado no tablóide e comentado pelos organizadores da oficina foi, no mínimo, gratificante.

Quem perdeu o Festival ainda pode assistir aos filmes disponibilizados online (aqui) e que concorreram ao prêmio Porta Curtas. Os filmes vencedores foram “Divino, De repente” e “Ana Beatriz“. Ambos também apareceram na lista de curtas mais votados pelo público, assim como outros que não estão na internet. Logo mais apareço para comentá-los.

É isso que eu quero para a vida. Respirar, ver, cheirar, tatear e sentir o gosto do cinema a cada dia. As minhas resenhas podem ser lidas no tablóide do Festival, ou aqui, onde disponibilizarei em breve. E daqui pra frente, aguardem meus textos no Blog do Crítica Curta. Benvindos ao mundo do curta-metragem.

Esse ano o Crítica Curta será diferente, como diz o próprio site do Kinoforum. Nesta edição, todos os interessados em crítica cinematográfica puderam participar, diferente dos anos anteriores em que apenas alunos de audiovisual e comunicação podiam se inscrever. Os candidatos participaram de uma oficina no MIS, uma com Sérgio Rizzo e outra com Christian Petermann e depois enviaram um texto sobre um dos curtas exibidos. Os selecionados, escolhidos pelo editor do tablóide do festival, jornalista e crítico de cinema Sérgio Rizzo, escreverão para o material de publicação do 20° Curta Kinoforum-Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 20 e 28 de agosto. Outra novidade é que a autora deste blog foi uma das selecionadas, com o texto abaixo, para fazer parte da equipe de 27 “críticos”.


Arabesco recorre ao fantástico universo de Borges e Poe

Curta de Eliane Caffé antecipa pistas sobre longas da diretora

A paulistana Eliane Caffé tem uma breve, mas reconhecida carreira como cineasta. Começou a produzir em meados da década de 80, assim como Tata Amaral e Beto Brant, e já no seu segundo curta-metragem, a diretora, roteirista e psicóloga por formação, deixava sinais do que seriam alguns elementos dos seus longas.

Em Arabesco (1990), dois assaltantes, vividos por Jonas Bloch e Alfredo Damiano, invadem um escritório sem portas e janelas, que guarda manuscritos e antiguidades, e no qual coisas misteriosas acontecem. Inconformados com a inexistência de um cofre, começam a vasculhar tudo na inútil busca por uma saída.

O filme foi produzido em pleno governo Collor, momento de sufocamento econômico-social, gerado pelo confisco de bens, e de início da crise de produção cinematográfica, com a extinção da Embrafilme. Não havia muitas saídas para a população. Neste sentido, Arabesco representa o contexto histórico do país e seus personagens encarnam duas soluções, o escapismo individual ou uma tentativa de acomodação.

O filme, porém, ultrapassa esta leitura. Como a própria palavra indica, arabesco é um conjunto de elementos que se repetem em um padrão infinito. Assim também é o único cenário do filme. Apesar de parecer restrita àquele ambiente claustrofóbico, a sala está em um espaço-tempo circular e sem fim. Este mundo fantástico se assemelha às obras de Jorge Luiz Borges, como no conto sobre a interminável Biblioteca de Babel. Impossível não lembrar também da Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, na medida em que um dos ladrões começa a se identificar com aquele estranho lugar. Assim como Roderick Usher representa a decadência da sua casa, o personagem de Jonas Bloch se afetua a certos objetos como a um astrolábio, reconhece em um mural a fotografia de uma mão praticamente igual à sua e, em desenhos, a situação que está vivendo. Suas expressões são marcadas pelo medo de que alguma verdade venha à tona, tal como no conto de Poe, também carregado de símbolos e oposições entre o real e a ficção.

Estes elementos são retomados na obra de Eliane Caffé, em filmes com registros mais realistas e menos fantasiosos. Seu curta Caligrama (1995) discute a situação dos moradores de rua, os “sem-lugar” da sociedade. Kenoma (1998), seu primeiro longa, foi inspirado em Ruínas Circulares, de Borges, e fala sobre a criação de uma máquina que funcione em moto-contínuo, mantendo um eterno movimento em oposição ao estagnado pequeno povoado que dá nome ao filme. Já em Narradores de Javé (2003), a população de uma cidade prestes a ser devastada pela construção de uma hidrelétrica decide documentar suas histórias, para que as memórias se preservassem, mesmo que o território se perdesse. Arabesco antecipa a problemática tempo-espacial em apenas 15 minutos, arrebatando diversos prêmios, entre eles cinco troféus no Festival de Gramado de 1990.

ARABESCO, de Eliane Caffé.
Brasil, Fic, cor, 35 mm, 1990

a_festa_da_menina_mortaUma temática comum em diversas obras do cinema nacional contemporâneo é a vida urbana e a relação asfalto-morro. Fora do eixo Rio-São Paulo, destaca-se a produção sobre o chamado “Brasil profundo”, do qual o sertão é quase sempre o protagonista. Nesta busca pela identidade brasileira, a filmografia nacional ganha agora A Festa da Menina Morta, obra centrada na região Norte, especificamente na Amazônia.

Santinho, representado de forma naturalista por Daniel de Oliveira em uma de suas melhores atuações, é uma espécie de ídolo messiânico, um Antônio Conselheiro de uma pequena comunidade ribeirinha do interior do norte brasileiro. Foi santificado ainda criança, quando um cachorro entregou-lhe os restos do vestido de uma menina desaparecida. Desde então ele recebe tratamentos especiais pela sua suposta divindade e, em homenagem à Menina Morta, é feita uma festa anual, que já acontece há vinte anos. Nesta ocasião, ele divulga as previsões feitas pela Menina para o ano.

O personagem de Santinho, no entanto, é carregado de ambiguidade, a começar pela sua androgenia. É delicado e agressivo. Frágil e bruto. É luxurioso e profano, apesar de ser considerado superior pelo seu milagre. Assim como ele, a adoração pela Menina também é feita em um registro de dualismo. Ao mesmo tempo em que há diversos rituais sagrados- como a costura de um manto, coroas de flores, oferendas e banhos- a festa popular se torna espetáculo, quando ganha shows pirotécnicos, musicais e comércio de bebidas. Ao final, o mito começa a ser questionado pelo irmão da menina, Tadeu, que afirma que não houve milagre e que a menina havia realmente desaparecido ou sido morta. O próprio Santinho começa a se dar conta daquilo que construíram para ele. Destaca-se  para esta tomada de consciência  a cena do reencontro entre  filho e mãe, com Cássia Kiss na pele da mãe, e o discurso cheio de dor e humanidade feito por Santinho no final, durante a festa.

Matheus Nachtergaele, ator de filmes como Baixio das Bestas (2007) e Amarelo Manga (2002), teve uma excelente estréia na direção. A inspiração em Cláudio Assis, que assina ambos os filmes citados é evidente, tanto no tema quanto na estética. Há referências ao Cinema Novo, com o uso de uma câmera inconstante e a presença de não-atores. O filme passeia pelo estetismo puro, pelo quase denuncismo, pelo registro dos documentários antropológicos e pela ficção. A fotografia de Lula Carvalho é escura, pesada e sufocante e, combinada ao ritmo lento e arrastado, causa incômodo no espectador. Ambígua também é a impressão do filme que fica no espectador, que fica exausto, mas ao mesmo tempo, permanece atento para compreender todo o folclore e a cultura presentes, manifestações tão longínquas do seu dia a dia nas grandes cidades. A Festa da Menina Morta foi selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes e marcou presença em festivais de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Chicago, Havana e Los Angeles.

Anualmente o BRAFFT – Festival de Cinema Brasileiro de Toronto leva um pouco da multiplicidade cultural brasileira ao Canadá, exibindo as produções cinematográficas nacionais e difundindo o cinema brasileiro para o mundo. Na terceira edição, que ocorrerá entre 4 e 8 de setembro, no Bloor Cinema, podem concorrer documentários e ficções em curta, média ou longa-metragem. Já as animações serão exibidas na UpTo3, mostra paralela exclusiva para este gênero.

Os filmes selecionados pela comissão concorrerão nas categorias de melhor filme, diretor, atriz e de melhor de público. Os vencedores ganharão um certificado, o troféu Golden Maple e prêmios em dinheiro, de quatro mil reais para os curtas, e seis mil para os longas. Fora da mostra competitiva, serão convidados dois filmes do do grande circuito. A curadoria é do jornalista e crítico de cinema Celso Sabadin.

Para participar, é necessário se inscrever até o dia 5 de julho no site e enviar pelo correio uma cópia em DVD do filme, com legendas em inglês. A produção deve ter sido realizada no Brasil ou por co-produção, no exterior, e finalizada nos últimos dois anos. A inscrição é gratuita. Para quem não vai conseguir se entrar no festival este anoo, já pode finalizar seu filme e se preparar para o próximo. Em geral o evento ocorre no segundo semestre.

O BRAFFT, primeira competição de produções exclusivamente brasileiras em solo canadense, dá aos cineastas brasileiros a oportunidade de divulgar seus trabalhos no exterior a custos baixíssimo, já que o único gasto é com o envio das cópias do DVD para a produção. Além disso, é uma plataforma de exibição de seus filmes lado a lado com produções famosas, como Meu Nome Não É Johnny, Não Por Acaso e Querô.

O Festival também oferece, em parceria com a Opy Viagens, um pacote exclusivo para estudantes interessados em trabalhar como voluntários durante o evento. A programação inclui passeios turísticos, trabalho na realização do Festival, palestras com cineastas canadenses e brasileiros e visitas aos estúdios. Ao final o voluntário recebe um certificado pela participação. O BRAFFT é realizado pelo Instituto Cefac e pelas produtoras Puente – Agência de Comunicação, no Brasil, e  a Southern Mirrors, no Canadá.

Picture 1Como já citado no post do dia 17 de junho, o cinema nacional vem demonstrando interesse em registrar a música brasileira. As estréias deste semestre tem Caetano Veloso, Paulo Vanzolini, Wilson Simonal, Titãs, Arnaldo Baptista e Mamonas Assassinas como protagonistas. Já a segunda metade do ano promete não ser muito diferente. O post comentava sobre a possibilidade de se fazer uma mostra apenas com documentário musicais nacionais. Eis que a idéia se torna realidade no  4º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que ocorrerá entre 6 e 12 de julho.

Para esta mostra foram selecionados nove longas-metragens, entre eles os já citados  Ninguém Sabe o Duro Que Dei, Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa, Loki – Arnaldo Baptista, O Mistério do Samba e O Homem que Engarrafava Nuvens, que ainda não estreou em circuito. Outros títulos ainda inéditos nas salas de cinema e que compõe a programação são O Milagre de Sta. Luzia (2008, Sergio Roizenblit), sobre Dominguinhos e a sanfona, Contratempo (2008, Malu Mader e Mini Kerti), sobre a importância da música nas comunidades carentes do Rio de Janeiro. Jards Macalé, o Morcego na Porta Principal (2008, Marco Abujamra e João Pimentel) e Waldick– Sempre no Meu Coração (2007, Patrícia Pillar), sobre os artistas que deram nome aos filmes também estão na programação.

O festival fará uma homenagem a Nelson Pereira dos Santos, considerado um dos precursores do Cinema Novo, e um dos diretores mais importantes do cinema nacional, com 37 filmes na carreira, dentre eles Vidas Secas (1962) e Rio 40 Graus (1957). Alex Viany e a retomada do cinema latino são outros motes que deram origem a sessões dentro do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que exibirá mais de 100 filmes, de 16 países diferentes. A programação completa, disponível no site,  estará dividida em salas do Memorial da América Latina, Cinemateca Brasileira, CineSesc, Cinusp “Paulo Emílio”, Museu da Imagem e do Som e Teatro Cacilda Becker. A entrada é franca.

balãovermelho

O Balão Vermelho (1956) é simples e lúdico. É daquelas obras que nos pegam já nas primeiras cenas para nos levar de volta à infância. Trata-se de um garoto, representado pelo filho do diretor do filme, Albert Lamorisse, que encontra um balão amarrado a um poste de luz e o liberta. Este plano-sequência surpreende o espectador, que não sabe o que a criança quer até terminar a escalada ao poste. A partir daí, o balão começa a segui-lo por toda Paris.

O diretor cria assim uma “fábula” sobre a infância e o amadurecimento, na medida em que dá vida a um objeto a princípio inanimado. O balão vira uma espécie de cachorrinho, ou melhor, um melhor amigo. O processo de zoomorfização, ouso até dizer, quase uma antropomorfização, é tão intenso que o balão não só acompanha o garoto, como também tem atitudes próprias. Como no trecho em que ele não quer ser segurado pelo seu companheiro, em um dos momentos mais divertidos do filme, ou durante as peripércias dos dois pelos bondes, a caminho da escola e no retorno para casa.

A beleza de O Balão Vermelho, como já afirmou André Bazin, em “Montagem Proibida”, não surge da utilização da montagem. O crítico afirma que o cineasta “recorre a ela acidentalmente” (grifo do autor) e que o balão realiza os movimentos que vemos em cena, por meio de truques e, por isso, “a ilusão, aqui surge como na prestidigitação da realidade. Ela é concreta e não resulta dos prolongamentos virtuais da montagem”. O menino e o balão, portanto, são protagonistas, pois estão sempre enquadrados em igual destaque e aparecem em planos duradouros.

A sensibilidade aflora em uma explosão de graça e delicadeza, quando a molecada resolve perseguir a dupla na tentativa de tomar o balão. Daí sucede uma sequência de perseguição e de alumbramento para retratar a vida, as descobertas sobre o mundo e as pessoas, a amizade, e, principalmente, fazer uma defesa da magia e do poético no cotidiano. Há pouquíssimos diálogos, a narrativa se desenvolve apenas com suporte da imagem e a trilha sonora acompanha quase todas as cenas. Com seus poucos minutos de duração, O Balão Vermelho venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original, o Prêmio Especial do Bafta Awards e a Palma de Ouro da sua categoria, todos no ano de 1957, e continua encantado todos que têm o prazer de o assistir.

Em janeiro de 2004 estreava, discretamente, o espetáculo “Agreste”. Cinco anos depois, a peça que carrega na bagagem o troféu da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e o prêmio Shell, ambos de 2004, voltou aos palcos paulistanos para mais uma temporada. Depois de ter passado pelo Chile, Alemanha e por capitais brasileiras, o espetáculo do dramaturgo, diretor e ator pernambucano, Newton Moreno, 42, está em cartaz no Espaço Parlapatões e demonstra, mais uma vez, toda a sua qualidade lírica.

O amor, temática recorrente na obra de Moreno, alinhava a história de um casal de lavradores nordestinos que tem uma paixão incondicional ameaçada por algo perigoso. Apesar do tom regionalista, o final gera uma reflexão sobre a intolerância, a ignorância e os limites do desejo. A encenação da Companhia Razões Inversas é dirigida por Marcio Aurélio e privilegia um cenário obscuro e econômico.

“Agreste” é estruturado em blocos, tem diálogos curtos, mas assemelha-se a um monólogo, apesar de estarem em cena João Carlos Andreazza e Paulo Marcelo, que se revezam magistralmente como personagens e narradores. O tempo é arrastado e lento, o que é sentido pelo espectador logo no início. A estética seca e delicada dá um ar rústico e, ao mesmo tempo, intimista ao texto, que atrai o público para refletir sobre conflitos do indivíduo e da sociedade, de forma que nem mesmo a idéia do mais puro amor passa ilesa aos valores sociais e idiossincrasias humanas.

A peça está na programação da Festa do Teatro, evento que ocorre entre 19 e 28 de junho, para promoção do acesso a programação teatral da cidade. Se quiser aproveitar, a  próxima distribuição de ingressos para a apresentação do dia 27 de junho será um dia antes, 26/06, das 11h às 15h, no Posto Teatro Municipal (Praça Ramos de Azevedo, S/N), e das 16h às 20h, no Posto Centro Cultural São Paulo (Avenida Vergueiro, 1000).

Agreste
Espaço Parlapatões – pça. Franklin Roosevelt, 158, República, região central, tel 3258-4449. 98 lugares. Sáb.: 19h.

apenasofimEnquanto os realizadores se estapeiam para ganhar um edital para produzir um filme, alguns jovens optaram por rifar uma garrafa de whisky. Com o saldo de aproximadamente 8 mil reais e apoio da faculdade e da produtora Mariza Leão, de Meu Nome Não é Johnny, nasceu Apenas o Fim. O estreante em longas-metragens por trás desta idéia é Mateus Souza, estudante de 20 anos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Tudo gira em torno da história de uma jovem que, cansada de tudo e de todos, inclusive de Antônio, seu namorado, decide fugir. Sua última hora antes de partir ela resolve passar com ele. Neste fim de relacionamento, eles relembram os bons momentos que passaram, criticam-se e fazem auto-críticas, enquanto Tom tenta convencê-la a desistir.

O filme já foi comparado às comédias de Woody Allen, aos dramas de Domingos de Oliveira e a Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Por-do-sol (2005), de Richard Linklater. A influência destes e de outros diretores como Bergman, Truffaut e do lema glauberiano “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” não passou à toa pelo jovem estudante de cinema, para a nossa sorte.

Apenas o Fim possui um argumento simples, foi filmado com tecnologia digital em aproximadamente 15 dias. A narrativa se passa em dois tempos. No passado, o casal aparece dentro de ambientes fechados, quartos e salas, nos quais têm diálogos intimistas, superficiais e clichês, por vezes, típicos de duas pessoas que querem se conhecer. A fotografia em preto e branco, os enquadramentos fechados e o posicionamento da câmera estática em plonggé, (de cima para baixo) contribuem para construir o clima. No presente, em cores, eles conversam enquanto passeiam pelos cantos da universidade, principal cenário da história. As transições entre estes dois momentos temporais lembram uma televisão fora de sintonia, remetendo ao estado espiritual dos dois personagens. Privilegiam-se planos longos, a câmera alternada, às vezes, leve e em movimento, outras vezes fixa, e a trilha sonora surge apenas como complemento, não para gerar emoção.

A simpatia do público se dá não apenas pelos temas contemporâneos da atual geração de jovens universitários. A situação representada é universal e comum a maioria dos casais de namorados. Além disso, é resultado do trabalho da convincente e realista atuação da dupla Érika Mader e Gregório Duvivier, que já trabalhou junta em Podecrer! (2007) e aceitou participar sem cobrar cachê.

Despretencioso e com orçamento baixíssimo – metade da renda veio do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ, o restante da tal rifa- o filme só chegou ao chamado grande circuito depois de ser promovido pela internet, por meio de blog, Twitter, Facebook, Myspace, Orkut, Youtube e um site. O longa, distribuído pelo Grupo Estação, já recebeu prêmio de melhor filme do Júri Popular no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo, além de ser selecionado para participar de festivais internacionais em Nova Iorque, Miami, Paris, Rotterdam, entre outros.

Quem acompanha as recentes produções nacionais sabe que o filme surpreende, pois distoa em forma, conteúdo, produção e distribuição, dos dramas sócio-econômicos e comédias românticas que avassalam as salas de cinema sem dar espaço para  filmes de indivíduos, sobre  sentimentos, coisas cotidianas e questões existenciais. Nós torcemos para que Apenas o Fim seja, com o perdão do trocadilho clichê e só para ficar no divertido climão dos diálogos do filme, apenas o começo.

simonal_ninguem_sabe_o_duro_que_dei_2008_g

Na temporada de estréias nacionais deste mês está Coração Vagabundo (2008, Fernando Andrade), filme sobre o internacionalmente conhecido Caetano Veloso, e Um Homem de Moral (2009, Ricardo Dias) homenageia um dos maiores nomes da música paulistana, Paulo Vanzolini, autor de clássicos como Ronda. Ainda em cartaz, Ninguém Sabe o Duro que Dei (2008, Manoel, Micael Langer e Calvito Leal), retoma a história de Wilson Simonal, artista que agradou às massas, atingiu o sucesso como um foguete e que caiu tão rápido quanto ascendeu, devido ao seu suposto envolvimento com a ditadura militar. Impossível seria descrever esta tragetória sem colocar a polêmica em questão.

A recorrência do tema a partir da década de 90 demonstra, no mínimo, o interesse em trazer à tona, mais do que personagens, mas fatos importantes da história cultural do país: Vanzolini e a boemia paulistana; Caetano e o inovador movimento tropicalista; Titãs e o rock, em A Vida Parece Uma Festa (2009, Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves). A lista continua, já que as biografias do gênero já passaram por Nelson Cavaquinho (1969, Leon Hirszman), Nelson Freire (2003, João Moreira Salles), Paulinho da Viola- Meu Tempo é Hoje (2003, Izabel Jaguaribe), Vinicius (2005, Miguel Faria Jr.), Cartola: Música para os Olhos (2006, Lírio Ferreira e Hílton Lacerda), entre outros tantos.

Outra questão é que existe entre o realizador e o personagem objeto de análise, assim como entre o espectador e o artista, uma memória afetiva muito forte – independente de de ser fã ou não, pois a relevância social é muito maior do que a mera idolatria-. Quem não reconhece, por exemplo, a importância de Chico Buarque, Elis Regina, João Gilberto, entre outros tantos, mesmo sem gostar da música? Essas pessoas estão relacionadas a uma época, uma atitude, uma geração. Não se deve esquecer ainda a forte relação do brasileiro com a música de modo geral. De todas as artes, esta é a manifestação cultural que mais atrai adeptos verde-amarelos, sejam músicas nacionais, folclóricas, tradicionais ou populares, ou estrangeiras. Fato é que o Brasil vive de ritmos. Aliás, não só o Brasil, pois este “estilo” de documentário musical já é tão difundido internacionalmente que consta na filmografia de cineastas do porte de Godard e Scorsese, que levaram os Rolling Stones para as telas.

Chamar este filão de tendência pode ser exagerado. No entanto, este tema que poderia engessar a linguagem dessas produções se renova a cada lançamento, com uma nova experimentação. Ningúem Sabe o Duro que Dei e A Vida Parece Uma Festa optaram por uma reconstrução de seus personagens, baseada principlamente em documentos audiovisuais e entrevistas, preferindo uma edição mais televisiva, ou melhor, mais popular e apelativa a tal memória afetiva. O resultado é que você acaba, dentro da sala de cinema, cantando junto com os artistas da tela. Enquanto isso, Cartola: Música Para os Olhos, segue um rumo mais lúdico, carrega uma carga poética muito maior, na medida em que mistura realidade e ficção em uma edição bastante fragmentada, caótica e, portanto, menos clássica, para apresentar o contexto, os ambientes em que viveu o músico, utilizando como cobertura para os momentos em que não há registros da época fios de luz, linhas de trem e outros recursos. Tudo isso é resultado da mente de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, ambos por trás de Baile Perfumado (1996, Paulo Caldas e Lírio Ferreira) e Árido Movie (2006, Lírio Ferreira). Atualmente, Lírio está envolvido com outro documentário sobre música: O Homem Que Engarrafava Nuvens, sobre Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga. Já João Moreira Salles seguiu outro caminho, construindo Nelson Freire com uma estética tão erudita, límpida e harmoniosa quanto a excelência da obra do pianista.

A história não acaba por aqui. O recém estredo Cantoras do Rádio (2008, Gil Baroni) optou por trabalhar de forma coletiva e generalizada, se focando na chamada Era do Rádio e nas pessoas que contribuíram para sua existência. Na mesma linha está O Mistério do Samba (2008, Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor). Para o próximo semestre, também estão previstos o lançamento de Herbert de Perto (2006, Roberto Berliner e Pedro Bronz), sobre o “líder” de Paralamas do Sucesso, A Música Segundo Tom Jobim (2009, Nelson pereira dos Santos) e Loki: Arnaldo Baptista (2009, Paulo Henrique Fontenelle) (fonte: FilmeB). Bezerra da Silva, Nana Caymmi, Novos Baianos e Raul Seixas também serão destaques. Com a variedade e a qualidade de documentários musicais que já acumulamos daria para elaborar um grande festival apenas com esses filmes.

Postagens Antigas »