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Condensation Cube, obra do artista Hans Haacke.

Não é só de cinema que se vive a vida. Por forças maiores, faz uma semana que não vejo um filme sequer. Sou uma cinéfila admitida e neste segundo estou tendo calafrios e me sinto enjoada- imagino que sejam de abstinência.

Redescobri neste tempo, porém, minha outra grande paixão. Aprendi desde miúda, com minha mãe, a também ser rato de biblioteca. Não que eu tenha abandonado e trocado o outro vício por este e vice-versa, mas fazia um bom tempo que não lia romances e peças com tanto gosto, já que livros teóricos de socilogoia, cinema, antropologia, comunicação e política me dominavam e me consumiam.

Engoli umas boas páginas esta semana. Comecei com José Saramago, um português com jeitinho mal humorado que escreve com formas de crescer inveja em qualquer um. Agora ele está famoso pela adaptação que o brasileiro Fernando Meirelles fez do seu Ensaio Sobre a Cegueira para o cinema, mas não é deste assunto que venho falar. Em As Intermitências da Morte, livro de 2005, Saramago conta como “no dia seguinte, ninguém morreu” por um capricho da Morte- ou da morte, com letra minúscula (só lendo para entender essa…). Deste enredo um tanto surrealista, encontramos situações tipicamente humanas e vemos retratadas atitudes do Estado, da Igreja, das máfias e pequenas e grandes corrupções com muita ironia e sarcasmo. Eu tenho a sensação de que Saramago é um discípulo distante de Machado de Assis- e se assim fosse, ousaria dizer que a criatura saiu melhor ainda do que o criador.

Delírios à parte, depois de trombar com Hélio Oiticica, Lygia Clark e sua turma nas artes plásticas; com Gil, Caetano, Tom Zé e toda a Tropicália; com Glauber, Sganzerla e companhia inventando o Cinema Novo, Marginal e etc., pensei que seria bom voltar ao começo de tudo com nossos modernistas. Foi aí que pesquei da prateleira O Rei da Vela, peça de Oswald de Andrade. Hoje vejo que os modernistas foram muito mais influentes na nossa cultura do que eu poderia ter previsto na época em que tive minhas experiências anteriores de literatura moderna, limitada aos clássicos do tipo Macunaíma.

Agora, entrei no fantástico mundo de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Os Aurelianos, Josés Arcadios, Remédios e Úrsula me sugaram para uma Macondo de tal forma que não gostaria de sair de lá tão cedo e mesmo assim tenho ânsias de ler o livro. Deste, prefiro não falar muito. Deixarei essa para o própiro Garcia Marques, em maravilhoso trecho da obra:

Ao ser destampado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:

- É o maior diamante do mundo.

- Não- corrigiu o cigano- É gelo. 

Depois dessa, cá entre nós, preciso dizer mais algum coisa?

Eu gosto de fotografia. Há três poucos anos, quando descobri este outro interesse, comecei a aguardar ansiosamente a mostra de fotos da World Press Photo. Neste ano, ela chega ao Brasil em exposição que começa hoje, dia 16 de maio.
O World Press Photo é uma organização holandesa, criada em 1955 para premiar as melhores fotografias jornalísticas do ano. A mostra é itinerante e passa por 45 países, em cidades como Atenas, Paris, Hamburgo, Milão e outras. Na edição de 2008, concorreram 5019 candidatos de 125 países. Do Brasil participaram cerca de 131 concorrentes.
A exposição fica organizada pelas categorias temáticas. Em geral há uma sessão de retratos, que não tem muito impacto, na minha opinião. Há também fotos esportivas, da natureza, outras contemporâneas, de notícias e eventos importantes do ano, além de artes e entretenimento. Desta vez, a vencedora foi uma foto de um soldado norte-americano em batalha no Afeganistão (lá do alto), tirada pelo inglês Tim Hetherington, da Vanity Fair. A foto do ano passado foi impactante e muito bonita.
Quem tiver interesse pode conferir toda a mostra (que não é muito grande) no Sesc Pompéia, localizado lá na Lapa, na rua Clélia. E a entrada é gratuita. Você nem tem desculpa para perder essa. Ainda não passei por lá, mas devo dizer que este dia não tarda muito a chegar. Enquanto isso, aproveito para ter um aperitivo no site oficial da World Press Photo (clique e conheça). Dê uma olhada por lá e veja que belo momento temos da ex-primeira ministra paquistanesa, Benazir Bhutto, morta no ano passado, na lente de Daniel Berehulak.

Outro dia, um amigo sugeriu que eu escrevesse também sobre filmes mais antigos. Expliquei que não tinha muita razão para ainda não ter feito isso. Esta semana, o mesmo amigo comentou de um belo filme, desses que não são novos, e resolvi falar sobre ele. Então, vamos lá.

Ninguém Pode Saber (veja o trailer no link), de Hirokazu Kore-eda, é um filme de 2004. Tudo começa com uma mãe e seu filho mais velho, um menino de 12 anos, em plena mudança de casa. Há um exagero de cuidados com as malas que eles carregam. Quando entram no apartamento nós descobrimos outras três crianças dentro das malas. A mãe os faz prometer que ficarão escondidos do resto do condomínio. O único que realmente existe ali é o menino Akira. Em pouco tempo, ela abandona os quatro filhos vivendo sozinhos naquele apartamento de Tóquio. A angústia que nos persegue durante todo o filme é que, aquilo que vemos, toda a degradação e descaso, está baseada em uma história real acontecida em meados dos anos 80. A ausência das figuras paterna e materna, esta última presente apenas algumas vezes, pelo dinheiro enviado pelo correio; a miséria; a falta de estabilidade financeira e a impossibilidade do pequeno trabalhar; a instauração do caos; a vontade de sobreviver e o amadurecimento forçado de Akira. A partir disso, a responsabilidade, a moral, a degradação e todo um alicerce social, não apenas do Japão, mas da humanidade, é discutido.

Do mesmo diretor, outro filme maravilhoso, de 1998. O roteiro de Depois da Vida (aqui também tem vídeo) é muito original, discute a pós-morte e assim reflete profundamente sobre a vida. Na história, as pessoas mortas precisam passar por um local antes de continuarem o seu caminho na eternidade. Seria uma repartição pública? Um escritório? Ou um intermediário entre o céu e o inferno? Um purgatório? Isso de fato não importa muito. Para continuarem seu caminho aquelas pessoas têm uma difícil tarefa, precisam escolher uma única lembrança, de todas da vida. O momento escolhido é reproduzido, com a ajuda dos funcionários, e filmado, para ser levado na memória para sempre. Há quem se revolte em escolher uma, ou que não consiga se decidir, dada a quantidade de opções e outros que não se lembrem de algo que quisessem levar. Surgem as mais diversas memórias, algumas engraçadas, outras melancólicas, simples ou cotidianas. Por fim, a metáfora do cinema, como aquele capaz de reproduzir memórias, guardando-as para a eternidade é uma homenagem. Comentando um texto de outro amigo, sobre a memória de acampamentos na infância, tive vontade de dizer que somos feitos de lembranças. E como não? São elas- e a ausência delas- que alimentam o hoje e os planos e desejos futuros. Você saberia escolher a sua lembrança?

Nos dois filmes a beleza está no prolongamento do tempo de reflexão e nas pequenas coisas do cotidiano, tão importantes e evidentes no cinema oriental e, às vezes, ignoradas por outros cinemas que gostam das grandiosidades. É claro que quando falo aqui em “cinemas” estou querendo dizer um tanto a mais…

Para quem não conhece Wong Kar-Wai, Um Beijo Roubado, será uma boa surpresa. Para quem já está dentro de sua obra, a sensação talvez não seja muito diferente das anteriores. O enredo é relativamente simples, mas só relativamente, afinal fala do amor, do amor como algo maior do que uma relação-casal. E assim, somos apresentados a Elisabeth, Norah Jones, na sua versão atriz, que tem uma desilusão amorosa e entra no comum ciclo de solidão e ausência que todos nós passamos. Para retomar a vida sai em uma viagem pelos Estados Unidos. Não espere um road-movie, pois há muito pouco de road neste filme, talvez porque aqui o que importa são as paradas e não a estrada, alucinadamente acelerada em alguns pequenos trechos. Nestas paradas é que vamos conhecer a relação da moça com Jeremy (Jude Law), dono do café-bar, com outros conhecidos e, principalmente, dela com ela mesma.
Alguns dizem que o filme é um tanto irregular. Talvez porque a vida seja assim. No primeiro momento, o filme se passa dentro do café-bar de Jeremy, com conversas, bifes e muitas tortas de blueberry. E porque não? Afinal, Elisabeth estava também sem rumo e precisava desacelerar. Enquanto ela busca um caminho, nós espectadores nos encantamos com os simbolismos e diálogos entre aqueles dois estranhos e amigos. E com as escolhas de Kar-Wai.
Uma das melhores passagens do filme concentra-se em Memphis, na história de Travis, policial durante o dia e um amante amargurado à noite. Ele sofre, sente dor e amor. Elisabeth o conhece aos poucos, assim como nós, que simpatizamos com os sentimentos do homem apaixonado e seus copos de bebida. Aliás, muito dele é desconstruído - construído para nós- no diálogo de Raichel Weisz e Elisabeth, já no fim da passagem, com simplicidade e densidade. Em seguida conhecemos Las Vegas e uma Natalie Portman viciada em jogos, sua maneira golpista, metirosa e desconfiada de viver, um contraponto e complemento para a personalidade de Elisabeth. Juntas, saem pelas estradas- que agora sim tem seu tempo e não precisam ser vertiginosas. O filme, assim como o que a protagonista vive para ultrapassar aquele amor, se fecha num ciclo, um círculo inacabado que forma uma espiral, pois antes de se concluído o caminho se desvia, para formar um novo ciclo.
A trilha sonora não poderia deixar de ter canções da protagonista, na sua versão cantora, mas isso não atrapalha a bela seleção de músicas, que são ouvidas- sim, você consegue sentir a música, em geral esquecida em outros filmes como pano de fundo. O filme de Kar-Wai, primeiro dele em inglês, mantém suas características e tem um belo trabalho de cores, contrastes de dias e noites e os closes repetidos nas entranhas da torta de blueberry. Quem gosta das brincadeiras de edição e câmera vai gostar das fusões de imagens sobrepostas, distorção de outras com os vidros, espelhos, letreiros e neons que surgem em profusão e dos planos deliciosos, com belas jogadas e escolhas de câmera, especialmente na primeira parte, quando tudo se restringe às noites dentro do café. O filme tem diversas referências ao cinema, aos grandes cineastas, como muitos críticos já notaram- e seria inevitável dizer- há uma forte ligação com Wenders em Paris, Texas, e à obra do próprio Kar-Wai. Você vai se sentir contemplado com este filme, seja pelo singelo, simbólico, enredo ou estética.

Sessão de sexta-feira à noite, no Cinesesc, um dos melhores cinemas da cidade de acordo com os guia semanais dos mais bojudos jornais. Passada uma hora de filme, a tela se apaga, as luzes acendem. Inversão de papéis? Os personagens desaparecem e a platéia se torna protagonista. Típica situação de Saramago….
Onde foi parar aquele universo? O interrogatório das autoridades? O menino sem melhores perspectivas de vida?

Silêncio.

Constrangimento. O moço grisalho e careca sai em busca de alguém uniformizado. O casal aproveita para namorar. Os amigos planejam o próximo programa. As amigas abandonam as queixas e se concentram em comentários sobre o filme. Marido e mulher aproveitam para tomar um café- mestre de cerimônias dos intervalos não preenchidos.
Olho para cima. O técnico está trabalhando com a película, que depois fiquei sabendo que arrebentou. Queria subir, queria tê-las em minhas mãos. Só então lembrei dos avisos na bilheteria. As cópias podem apresentar defeito. Cópias. Defeitos. Defeitos. As luzes se apagam, os personagens e rostos conhecidos voltam. Silêncio. E tudo volta ao normal.

Foi assim que me descobri pensando o que é o cinema sem vida. O que é o cinema sem a luz, sem o movimento, sem a platéia e sem a viagem dentro de cada nova história. O cinema seria nada. E eu, no desespero de ter deixado todo aquele mundo ficcional escapar pelas minhas mãos, também nada seria.

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Santiago.
O que é Santiago? É um filme sobre um homem, seu tempo e sua vida, sobre seu isolamento e as amizades de papel. É um filme sobre João Moreira Salles, sobre a sua biografia, sua família e suas memórias. É um filme sobre hierarquias e jogos de poder. Talvez isso seja pouco, e o que importe mesmo seja a melancolia, a coragem e a maturidade. O movimento de João Moreira Salles é raro. Em geral, muito se faz, ou se tenta fazer, e pouco se reflete. E quando filmes muito interessantes são comentados por seus diretores, vem a decepção. Nem eles mesmos sabem o poder e a importância dos seus trabalhos. Pensando o cinema brasileiro, desde suas origens até hoje, sinto que talvez seja este um dos filmes mais importantes da nossa cinematografia, porque ele foi pensado, digerido, regurgitado, re-pensado. Ele-o filme e o diretor- teve seu tempo. O tempo, “És um dos deuses mais lindos”!

No dia 8 de abril começa a tradicional mostra retrospectiva 2007 do CineSesc. Quem não conseguiu ver os filmes do ano passado pode correr para a Augusta e tentar pegar a sessão desejada. Para você se organizar, deixo a programação completa. O ingresso custa R$6,00.

Se eu fosse você, não perderia estes filmes: Jogo de Cena, A Vida dos Outros, Em Busca da Vida, Vermelho como o Céu, Cartas de Iwo Jima, Santiago, Cartola, Mutum e Império dos Sonhos. Só não ocupem todos os lugares da sala, ou melhor, guardem um para mim. Tenho os meus atrasos para colocar em dia e estarei por lá, no mínimo, para duas sessões.

8 de abril – terça-feira
14h30 - Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton
16h30 - Mais Estranho que a Ficção, de Marc Forster
19h - A Rainha, de Stephen Frears
21h - O Passado, de Hector Babenco

9 de abril – quarta-feira
14h30 - Noel, Poeta da Vila, de Ricardo van Steen
16h30 - Novo Mundo, de Emanuele Crialese
19h - O Grande Chefe, de Lars Von Trier
21h - Piaf, Um Hino ao Amor, de Olivier Dahan

10 de abril – quinta-feira
14h30 - Cão Sem Dono, de Beto Brant
16h30 - Babel, de Alejandro González Iñarritu
19h - Em Paris, de Christophe Honoré
21h - O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, de Andrew Dominik

11 de abril – sexta-feira
14h30 - Notas sobre Um Escândalo, de Richard Eyre
16h30 - O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia
19h - A Via Láctea, de Lina Chamie
21h - Império dos Sonhos, de David Lynch

12 de abril – sábado
14h30 - Baixio das Bestas, de Claudio Assis
16h30 - Babel, de Alejandro González Iñarritu
19h - Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
21h - A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck

13 de abril – domingo
14h30 - A Casa de Alice, de Chico Teixeira
16h30 - Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke
19h - Maria, de Abel Ferrara
21h - Tropa de Elite, de José Padilha

14 de abril – segunda-feira
14h30 - A Culpa é do Fidel, de Julie Gavras
16h30 - A Procura da Felicidade, de Gabriele Muccino
19h - O Violino, de Francisco Vargas
21h - O Sobrevivente, de Werner Herzog

15 de abril – terça-feira
14h30 - Não por Acaso, de Philippe Barcinski
16h30 - Conduta de Risco, de Tony Gilroy
19h - Vermelho como o Céu, de Cristiano Bortone
21h - Zodíaco, de David Fincher

16 de abril – quarta-feira
14h30 - A Comédia do Poder, de Claude Chabrol
16h30 - Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood
19h - A Casa de Alice, de Chico Teixeira
21h - O Passado, de Hector Babenco

17 de abril – quinta-feira
14h30 - Saneamento Básico, de Jorge Furtado
16h30 - Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais
19h - Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson
21h - Piratas do Caribe – No Fim do Mundo, de Gore Verbinski

18 de abril – sexta-feira
14h30 - Proibido Proibir, de Jorge Duran
16h30 - Pecados Íntimos, de Todd Field
19h - Querô, de Carlos Cortez
21h - Tropa de Elite, de José Padilha

19 de abril – sábado
14h30 - A Via Láctea, de Lina Chamie
16h30 - Piaf, Um Hino ao Amor, de Olivier Dahan
19h - Santiago, de João Moreira Salles
21h - Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes

20 de abril – domingo
11h - As aventuras de Azur e Asmar, de Michel Ocelot
14h30 - Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
16h30 - A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck
19h - O Preço da Coragem, de Michael Winterbottom
21h - No Vale das Sombras, de Paul Haggis

21 de abril – segunda-feira
11h - Ratatoiulle, de Brad Bird
14h30 - Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke
16h30 - Ratatoiulle, de Brad Bird
19h - Cartola, de Lírio Ferreirra
21h - Lady Chatterley, de Pascale Ferran

22 de abril – terça-feira
14h30 - Possuídos, de William Friedkin
16h30 - O Amor nos Tempos do Cólera, de Mike Newell
19h - O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho
21h - O Último Rei da Escócia, de Kevin Macdonald

23 de abril – quarta-feira
14h30 - Mutum, de Sandra Kogut
16h30 - A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck
19h - Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá“, de Silvio Tendler
21h - O Hospedeiro, de Joon-ho Bong

24 de abril – quinta-feira
14h30 - 500 Almas, de Joel Pizzini
16h30 - A Leste de Bucareste, de Corneliu Porumboiu
19h - Carreiras, de Domingos de Oliveira
21h - Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke

Bom filme!

E começa abril, um mês que promete, pelo menos para nós, cinéfilos de plantão. Preparem os corações para aguardar as estréias que vem por aí. Por trás dos títulos prometidos para este mês temos, nada mais nada menos que Scorsese, Gondry, Amos Gitai e uma lista bem recheada de brasileiros. Pipocas estouradas, vamos ao que interessa.

A grande espera é, obviamente por Shine a Light (clique para ver o trailer no próprio site, com qualidade impecável). Motivos para o alarde não faltam. Scorsese no cinema, em documentário sobre, nada mais, nada menos que uma das maiores bandas de rock da história, que completa 45 anos de carreira. Rolling Stones. A proposta é simples, filmar duas apresentações da banda. Mas algo me diz que bastidores e palco desta experiência não podem passar desapercebidos por ninguém. A qualidade da imagem é assustadora, a luz está perfeita e faz brilhar ainda mais a trajetória da banda, condensada neste documentário-show. Sugiro fortemente que você pegue aquele guia recém-lançado, com as melhores salas de cinema da cidade e faça a sua seleção. Leve em conta a qualidade da tela e do som desta vez, mesmo que para isso você tenha que dar um pulinho naquelas filas de shoppings. O esforço valerá a pena. Ainda não vi o filme, mas o trailer foi suficiente para empolgar até quem não tem as músicas na ponta da língua.

Amos Gitai, diretor israelense do belo Free Zone, retorna às telas brasileiras com o longa A Retirada (quem pode asssitir, viu um curta seu no filme Cada Um Com Seu Cinema, ainda em cartaz por aqui). Mais uma vez, o diretor olha para a sua terra de origem e faz um filme refletivo a partir da história do reencontro de dois irmãos para o funeral do pai, na França. O conteúdo do testamento obriga Ana e seu meio-irmão a voltarem para Israel e reencontrarem o passado e presente de suas vidas e da realidade sócio-política do país. Com Juliette Binoche.

E só para me deliciar, já que estou debruçada sobre o cinema brasileiro, mais e mais estréias nacionais vem chegando. O primeiro que gostaria de comentar é o filme Estômago, do estreante Marcos Jorge. Baseado em um livro, conta como o cotidiano e os planos de prisioneiros muda com a chegada do companheiro de cela Raimundo, um cozinheiro de mão cheia. O trailer me pareceu muito interessante e o filme já andou sendo premiado por aí. Os veteranos Carlos Reichenbach e Walter Lima Jr. estréiam com a Falsa Loura e Os Desafinados, respectivamente. Reichenbach segue falando sobre as proletárias de fábricas em seu novo filme, que pode gerar pré-julgamentos pelo seu elenco. O filme de Walter Lima Jr., que ficou quase 10 anos sem lançar longas, trabalha com passado e presente, cinema e música, com referências ao Cinema Novo e a Bossa Nova. Os Desafinados me parece tão poético e fragmentado como seu A Ostra e o Vento. Como o próprio diretor afirma, para a revista IstoÉ online, “bateu a necessidade de falar de Brasil, de assumir um olhar mais politizado sobre o que eu vi – sem rancor, com humor, sem estar esvaziado ou melancólico”. Nem preciso dizer que voltarei para dar mais espaço para ele, não?

Se são bons ou ruins, vou deixar para dizer depois de conferir.

***Talvez exista a possibilidade de mais uma estréia de Tarantino, o filme À Prova de Morte. Deste não vou falar agora, já que ele deveria ter estreado em março e até agora, nada. E porque não sou sua maior fã, apesar de ser impossível admitir todo o trabalho estético e discussão sobre a cultura pop, tanto na forma quanto no conteúdo. Já Michel Gondry, de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, deve chegar por aqui com uma comédia, ainda sem data prevista. Como sempre, seus trabalhos privilegiam os roteiros e desta vez não deve ser diferente, apesar do gênero cômico. O filme Be Kind Rewind conta a história de um trabalhador que planeja sabotar a usina elétrica da cidade. O plano deu errado ele acabou apagando todas as fitas da locadora de vídeo de seu amigo (o motivo e o plano, deixo para o filme contar). Para não perderem sua fiel cliente, os dois resolvem refilmar tudo. Clássicos como De Volta Para o Futuro, Caça-fantasmas e até o Rei Leão entram na história. A proposta parece um tanto inusitada, mas quem gosta do diretor vai querer conferir mesmo assim.

Queria ser Bob Dylan

Naquele sábado, entrei no cinema com a certeza de que veria um bom filme. O dia era propício e eu acabara de roubar um pouco de um saboroso chocolate quente da xícara companheira. A sala ficou escura e a projeção começou me dando um tapa na cara. Aquele não seria um filme comum. O letreiro, que fazia uma brincadeira (i’m not here) com o nome do filme, deu a dica. E então sou apresentada a um músico prodígio do Blues, um menino negro com 11 anos de idade; um poeta, um tanto surrealista; um artista de cinema em crise familiar; um Billy The Kid lutando contra a destruição de uma cidade localizada em um vale; o cantor folk que se converte e vira pastor e um cantor de rock.
Uma biografia, pensava eu durante o filme. Isso é um engano, ou no mínimo uma injustiça. Por mais que todas as histórias ali contadas se baseassem na vida de uma pessoa, havia mais ali do que uma individualidade. Eles poderiam ser qualquer um de nós, poderiam ser eu mesma. Afinal, quem não é multifacetado, metamorfoseado a cada segundo que passa?
Percebi que esta era apenas uma das formas universais que este filme assumiria. Durante a exibição, pensava qual seria o papel do artista. Fazer o que a sociedade quer ver e ouvir, ou seria ao contrário? O artista tem liberdade ou se limita aos limites impostos? Em que medida é possível não ser absorvido pelo sistema? Quando começava a me perder nos pensamentos propostos pelo filme, a estética vinha arrebatando a minha atenção. Uma correnteza de estímulos. Utopia e realidade. Ficção e documental. Preto e branco. Vermelho, azul, amarelo. Mistura de cores com a ausência delas. Edição fragmentada, imagem, tempo, sons agradáveis e estridentes. E referências, além das pequenas doses de elementos nonsense. Personalidades conflitantes, ao mesmo tempo, complementares. Forma e conteúdo em uma convergência milimetricamente perfeita.
No meio do filme, me sentia plenamente consciente de dizer “não quero que ele acabe”. Mas acabou. E os créditos subiam, enquanto me vinha uma forte e emocionada onda de felicidade e prazer, que pude compartilhar longamente com meu companheiro, dono daquela xícara. Naquele sabádo, vi muito mais do que um bom filme.

***

Deixe o conservadorismo em casa. Vá ao cinema com a cabeça aberta, num dia em que não esteja buscando linearidade e conforto mental. Christian Bale, Heath Ledger, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Ben Whishaw e Cate Blanchett fazem o papel de Bob Dylan em interpretações fantásticas que, assim como o próprio Dylan, fogem da nossa compreenssão (Cate Blanchett fica quase irreconhecível e Richard Gere está em seu melhor papel, para comentar apenas duas das atuações). I’m Not There (veja o link para o trailer), obra-prima do diretor Todd Haynes, vai deixar marcas na cinematografia…

Alfred Hitchcock é o mestre do suspense e foi responsável por contriibuir para a construção da história da cinematografia. Produziu na Inglaterra e inaugurou o primeiro filme com som em território inglês, Blackmail ou Chantagem e Confissão, de 1929. Depois, foi para os Estados Unidos num período em que conseguia lançar quase um filme por ano. Neste mês, a revista americana Vanity Fair, escolheu ele e sua obra para ser objeto do Hollywood Portfolio: Hitchcock Classics. Foram convidados 21 atores para reconstituírem cenas de 11 filmes do diretor.

Marejaram os olhos?
E como a curiosidade mata, veja a lista completa de atores e os respectivos filmes:
Disque M para matar- Charlize Theron;
Janela Indiscreta- Javier Bardem e Scarlett Johansson;
Rebeca-
Keira Knightley e Jennifer Jason Leigh;
Vertigo- Renée Zellweger;
Marnie- Confissões de uma Ladra- Naomi Watts;
Psicose- Marion Cotillard;
Intriga Internacional- Seth Rogen;
Os Pássaros
- Jodie Foster;
Ladrão de Casaca- Gwyneth Paltrow e Robert Downey Jr.;
Pacto Sinistro- Emile Hirsch e James McAvoy;
Um barco e Nove Destinos- Casey Affleck, Josh Brolin, Julie Christie, Ben Foster, Omar Metwally, Eva Marie Saint e Tang Wei.

Que resultado! Um trabalho de equipe, os atores praticamente encorporaram seus papéis, para apenas uma sesão fotográfica; a direção de arte e figurinistas também foram sensacionais, conseguindo reconstituir os cenários e roupas tal qual foram feitos pela direção do mestre.

Quem é fã pode se deliciar, fazendo comparações das cenas originais com as releituras, e quem não é também vai curtir. Parte do resultado pode ser visto aqui, em um making off e em 11 fotografias (ao clicar neste link você poderá ver todas elas. Abaixo de cada foto, confira o nome dos fotógrafos e a foto original). A minha preferida é a de Janela Indiscreta, com a dupla Javier Bardem e Scarlett Johansson, na pele dos personagens Jeff e Lisa, encarnados no original por James Stewart e Grace Kelly. E a sua, qual é?

Já quem quiser conhecer mais sobre a obra e a pessoa de Hitchcock pode, além de sair correndo para ver todos os seus filmes, engatar na leitura de Hitchcock / Truffaut: Entrevistas, livro escrito pelo próprio François Truffaut, resultado de uma série (bem extensa, eu diria) de perguntas. O texto é uma delícia de ler e trabalha elementos da vida pessoal do diretor, das técnicas utilizadas e da sua relação com atores e produtoras, revelando, por exemplo, que nem sempre a presença constante de certos atores era totalmente de seu desejo e agrado. Outro fato interessante ali descrito é que, em Janela Indiscreta todos os atores que aparecem nas janelas vistas pelo nosso fotógrafo da perna quebrada eram dirigidos por um ponto, a partir do qual ouviam as direções. Assim, é possível ver um casal brigando em uma sacada, pois o diretor deu a mesma instrução para ambos, de puxar um colchão cada qual para o seu lado, gerando uma briga mais “natural”.

Esta semana assisti o brasileiro A Ostra e o Vento (199 8) de Walter Lima Jr, que trabalha com algumas características da filmografia de Hitchcock. Não apenas há uma atmosfera de suspense, mas também referências muito fortes e diretas em algumas cenas.

Ao que parece março terá dois fatores inusitados nas estréias do mês.

Em primeiro lugar, é importante notar que tem muito filme brasileiro chegando às telonas. Acho que 2008 vai ser um ano bem recheado de filmes nacionais.

 

Laís Bodanzky vem com o Chega de saudade, que está anunciado há tempos, para criar uma ficção sobre uma noite de freqüentadores de um baile de terceira idade, na cidade de São Paulo. Já Serras da desordem é um documentário de Andrea Tonacci baseado na vida de Carapirú, um índio que sobreviveu a um ataque a sua tribo e tornou-se um nômade, desaparecido pelas terras do país, até que, 10 anos depois, na tentativa de ser identificado, reencontra seu filho. Um filme com características bem antropológicas, pode abrir espaço para refletir sobre o indivíduo e seu lugar na sociedade. Juízo discute sobre os jovens, a criminalidade e as punições. Vale a pena notar que, como identificar jovens infratores é proibido, os meninos filmados não estão, na realidade, nas condições apresentadas, embora vivam de forma semelhante. Ao mesmo tempo, as outras são pessoas reais, em atividades reais.

Mais interessantes são O Fim da linha, com a sua chuva de dinheiro no centro de São Paulo, que vincula os vários núcleos de personagens (políticos, índios, catadores de papel e outros) apresentados e Ainda orangotangos, um plano-seqüência (sim, é isso mesmo, um plano-seqüência) que conta em 81 minutos as 14 horas de quinze personagens que circulam por Porto Alegre (olha só, mudamos o cenário, saímos dos sertões e do eixo Rio-São Paulo). Ufa!

O outro fenômeno ao qual me referi é a chacina aos presidentes norte-americanos. Como assim? Simples. Há duas estréias previstas para matar o tal presidente. O primeiro é uma produção britânica, que combina características documentais e ficcionais para falar sobre A morte do presidente George W. Bush. A história parte do assassinato deste Bush por um franco-atirador, quando saía de um hotel de Chicago. Foi eleito o melhor filme pela crítica lá no Festival de Toronto. O segundo, Ponto de vista, descreve o incidente do assassinato do presidente (ao que parece não é de um presidente específico, mas vale ver para conferir se há dicas sobre a política econômica, de segurança nacional e assim vai). E para quem cansou de ver Mattew Fox como Jack, do seriado “Lost, pode ver a sua atuação finalmente num longa. No entanto, acho que quem brilhará mesmo será Forest Whitaker, do Último rei da escócia. Coincidência ou não, presidentes norte-americanos já foram muito assassinados nos cinemas. Algum motivo casual para dois roteiros semelhantes surgirem agora, numa mesma época? Não digo que estes dois filmes sejam promessas, ou sejam ruins, mas alimentam a reflexão anterior. Ficam as dicas para pensar.

Mais uma coincidência. Bod Dylan chega ao Brasil nas versões carne-e-osso e “película. Isso por que o músico fará shows hoje e amanhã no Via Funchal, além de outros no Rio de Janeiro e, não suficiente, há boatos de que a prefeitura de São Paulo quer fazer um acordo para um mega-show de Dylan, de graça, para um público nada pequeno. No cinema, ele esterá representado pelo filme I’m not there (Não estou lá), uma biografia muito inovadora em que diversos atores (entre eles, Christian Bale, Cate Blanchett e o jovem Heath Ledger, recém falecido) farão o papel de Dylan, nas várias fases da sua vida- ver a foto lá de cima. A proposta não é contar ipsis literis a vida do cantor, mas digamos assim, fazer uma adaptação para as telas. Quem já viu pode ter achado confuso, mas a impressão é de fragmentar e enriquecer ainda mais esta vida recortada. Alguma opinião?

Ah, e finalmente, o prometido Cada um com seu cinema, previsto para o mês passado, poderá ser visto já esta semana. Depois de tudo isso, só pegando um cineminha para conferir o que realmente há de bom rolando.

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