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a_festa_da_menina_mortaUma temática comum em diversas obras do cinema nacional contemporâneo é a vida urbana e a relação asfalto-morro. Fora do eixo Rio-São Paulo, destaca-se a produção sobre o chamado “Brasil profundo”, do qual o sertão é quase sempre o protagonista. Nesta busca pela identidade brasileira, a filmografia nacional ganha agora A Festa da Menina Morta, obra centrada na região Norte, especificamente na Amazônia.

Santinho, representado de forma naturalista por Daniel de Oliveira em uma de suas melhores atuações, é uma espécie de ídolo messiânico, um Antônio Conselheiro de uma pequena comunidade ribeirinha do interior do norte brasileiro. Foi santificado ainda criança, quando um cachorro entregou-lhe os restos do vestido de uma menina desaparecida. Desde então ele recebe tratamentos especiais pela sua suposta divindade e, em homenagem à Menina Morta, é feita uma festa anual, que já acontece há vinte anos. Nesta ocasião, ele divulga as previsões feitas pela Menina para o ano.

O personagem de Santinho, no entanto, é carregado de ambiguidade, a começar pela sua androgenia. É delicado e agressivo. Frágil e bruto. É luxurioso e profano, apesar de ser considerado superior pelo seu milagre. Assim como ele, a adoração pela Menina também é feita em um registro de dualismo. Ao mesmo tempo em que há diversos rituais sagrados- como a costura de um manto, coroas de flores, oferendas e banhos- a festa popular se torna espetáculo, quando ganha shows pirotécnicos, musicais e comércio de bebidas. Ao final, o mito começa a ser questionado pelo irmão da menina, Tadeu, que afirma que não houve milagre e que a menina havia realmente desaparecido ou sido morta. O próprio Santinho começa a se dar conta daquilo que construíram para ele. Destaca-se  para esta tomada de consciência  a cena do reencontro entre  filho e mãe, com Cássia Kiss na pele da mãe, e o discurso cheio de dor e humanidade feito por Santinho no final, durante a festa.

Matheus Nachtergaele, ator de filmes como Baixio das Bestas (2007) e Amarelo Manga (2002), teve uma excelente estréia na direção. A inspiração em Cláudio Assis, que assina ambos os filmes citados é evidente, tanto no tema quanto na estética. Há referências ao Cinema Novo, com o uso de uma câmera inconstante e a presença de não-atores. O filme passeia pelo estetismo puro, pelo quase denuncismo, pelo registro dos documentários antropológicos e pela ficção. A fotografia de Lula Carvalho é escura, pesada e sufocante e, combinada ao ritmo lento e arrastado, causa incômodo no espectador. Ambígua também é a impressão do filme que fica no espectador, que fica exausto, mas ao mesmo tempo, permanece atento para compreender todo o folclore e a cultura presentes, manifestações tão longínquas do seu dia a dia nas grandes cidades. A Festa da Menina Morta foi selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes e marcou presença em festivais de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Chicago, Havana e Los Angeles.

Anualmente o BRAFFT – Festival de Cinema Brasileiro de Toronto leva um pouco da multiplicidade cultural brasileira ao Canadá, exibindo as produções cinematográficas nacionais e difundindo o cinema brasileiro para o mundo. Na terceira edição, que ocorrerá entre 4 e 8 de setembro, no Bloor Cinema, podem concorrer documentários e ficções em curta, média ou longa-metragem. Já as animações serão exibidas na UpTo3, mostra paralela exclusiva para este gênero.

Os filmes selecionados pela comissão concorrerão nas categorias de melhor filme, diretor, atriz e de melhor de público. Os vencedores ganharão um certificado, o troféu Golden Maple e prêmios em dinheiro, de quatro mil reais para os curtas, e seis mil para os longas. Fora da mostra competitiva, serão convidados dois filmes do do grande circuito. A curadoria é do jornalista e crítico de cinema Celso Sabadin.

Para participar, é necessário se inscrever até o dia 5 de julho no site e enviar pelo correio uma cópia em DVD do filme, com legendas em inglês. A produção deve ter sido realizada no Brasil ou por co-produção, no exterior, e finalizada nos últimos dois anos. A inscrição é gratuita. Para quem não vai conseguir se entrar no festival este anoo, já pode finalizar seu filme e se preparar para o próximo. Em geral o evento ocorre no segundo semestre.

O BRAFFT, primeira competição de produções exclusivamente brasileiras em solo canadense, dá aos cineastas brasileiros a oportunidade de divulgar seus trabalhos no exterior a custos baixíssimo, já que o único gasto é com o envio das cópias do DVD para a produção. Além disso, é uma plataforma de exibição de seus filmes lado a lado com produções famosas, como Meu Nome Não É Johnny, Não Por Acaso e Querô.

O Festival também oferece, em parceria com a Opy Viagens, um pacote exclusivo para estudantes interessados em trabalhar como voluntários durante o evento. A programação inclui passeios turísticos, trabalho na realização do Festival, palestras com cineastas canadenses e brasileiros e visitas aos estúdios. Ao final o voluntário recebe um certificado pela participação. O BRAFFT é realizado pelo Instituto Cefac e pelas produtoras Puente – Agência de Comunicação, no Brasil, e  a Southern Mirrors, no Canadá.

Picture 1Como já citado no post do dia 17 de junho, o cinema nacional vem demonstrando interesse em registrar a música brasileira. As estréias deste semestre tem Caetano Veloso, Paulo Vanzolini, Wilson Simonal, Titãs, Arnaldo Baptista e Mamonas Assassinas como protagonistas. Já a segunda metade do ano promete não ser muito diferente. O post comentava sobre a possibilidade de se fazer uma mostra apenas com documentário musicais nacionais. Eis que a idéia se torna realidade no  4º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que ocorrerá entre 6 e 12 de julho.

Para esta mostra foram selecionados nove longas-metragens, entre eles os já citados  Ninguém Sabe o Duro Que Dei, Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa, Loki – Arnaldo Baptista, O Mistério do Samba e O Homem que Engarrafava Nuvens, que ainda não estreou em circuito. Outros títulos ainda inéditos nas salas de cinema e que compõe a programação são O Milagre de Sta. Luzia (2008, Sergio Roizenblit), sobre Dominguinhos e a sanfona, Contratempo (2008, Malu Mader e Mini Kerti), sobre a importância da música nas comunidades carentes do Rio de Janeiro. Jards Macalé, o Morcego na Porta Principal (2008, Marco Abujamra e João Pimentel) e Waldick– Sempre no Meu Coração (2007, Patrícia Pillar), sobre os artistas que deram nome aos filmes também estão na programação.

O festival fará uma homenagem a Nelson Pereira dos Santos, considerado um dos precursores do Cinema Novo, e um dos diretores mais importantes do cinema nacional, com 37 filmes na carreira, dentre eles Vidas Secas (1962) e Rio 40 Graus (1957). Alex Viany e a retomada do cinema latino são outros motes que deram origem a sessões dentro do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que exibirá mais de 100 filmes, de 16 países diferentes. A programação completa, disponível no site,  estará dividida em salas do Memorial da América Latina, Cinemateca Brasileira, CineSesc, Cinusp “Paulo Emílio”, Museu da Imagem e do Som e Teatro Cacilda Becker. A entrada é franca.

balãovermelho

O Balão Vermelho (1956) é simples e lúdico. É daquelas obras que nos pegam já nas primeiras cenas para nos levar de volta à infância. Trata-se de um garoto, representado pelo filho do diretor do filme, Albert Lamorisse, que encontra um balão amarrado a um poste de luz e o liberta. Este plano-sequência surpreende o espectador, que não sabe o que a criança quer até terminar a escalada ao poste. A partir daí, o balão começa a segui-lo por toda Paris.

O diretor cria assim uma “fábula” sobre a infância e o amadurecimento, na medida em que dá vida a um objeto a princípio inanimado. O balão vira uma espécie de cachorrinho, ou melhor, um melhor amigo. O processo de zoomorfização, ouso até dizer, quase uma antropomorfização, é tão intenso que o balão não só acompanha o garoto, como também tem atitudes próprias. Como no trecho em que ele não quer ser segurado pelo seu companheiro, em um dos momentos mais divertidos do filme, ou durante as peripércias dos dois pelos bondes, a caminho da escola e no retorno para casa.

A beleza de O Balão Vermelho, como já afirmou André Bazin, em “Montagem Proibida”, não surge da utilização da montagem. O crítico afirma que o cineasta “recorre a ela acidentalmente” (grifo do autor) e que o balão realiza os movimentos que vemos em cena, por meio de truques e, por isso, “a ilusão, aqui surge como na prestidigitação da realidade. Ela é concreta e não resulta dos prolongamentos virtuais da montagem”. O menino e o balão, portanto, são protagonistas, pois estão sempre enquadrados em igual destaque e aparecem em planos duradouros.

A sensibilidade aflora em uma explosão de graça e delicadeza, quando a molecada resolve perseguir a dupla na tentativa de tomar o balão. Daí sucede uma sequência de perseguição e de alumbramento para retratar a vida, as descobertas sobre o mundo e as pessoas, a amizade, e, principalmente, fazer uma defesa da magia e do poético no cotidiano. Há pouquíssimos diálogos, a narrativa se desenvolve apenas com suporte da imagem e a trilha sonora acompanha quase todas as cenas. Com seus poucos minutos de duração, O Balão Vermelho venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original, o Prêmio Especial do Bafta Awards e a Palma de Ouro da sua categoria, todos no ano de 1957, e continua encantado todos que têm o prazer de o assistir.

Em janeiro de 2004 estreava, discretamente, o espetáculo “Agreste”. Cinco anos depois, a peça que carrega na bagagem o troféu da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e o prêmio Shell, ambos de 2004, voltou aos palcos paulistanos para mais uma temporada. Depois de ter passado pelo Chile, Alemanha e por capitais brasileiras, o espetáculo do dramaturgo, diretor e ator pernambucano, Newton Moreno, 42, está em cartaz no Espaço Parlapatões e demonstra, mais uma vez, toda a sua qualidade lírica.

O amor, temática recorrente na obra de Moreno, alinhava a história de um casal de lavradores nordestinos que tem uma paixão incondicional ameaçada por algo perigoso. Apesar do tom regionalista, o final gera uma reflexão sobre a intolerância, a ignorância e os limites do desejo. A encenação da Companhia Razões Inversas é dirigida por Marcio Aurélio e privilegia um cenário obscuro e econômico.

“Agreste” é estruturado em blocos, tem diálogos curtos, mas assemelha-se a um monólogo, apesar de estarem em cena João Carlos Andreazza e Paulo Marcelo, que se revezam magistralmente como personagens e narradores. O tempo é arrastado e lento, o que é sentido pelo espectador logo no início. A estética seca e delicada dá um ar rústico e, ao mesmo tempo, intimista ao texto, que atrai o público para refletir sobre conflitos do indivíduo e da sociedade, de forma que nem mesmo a idéia do mais puro amor passa ilesa aos valores sociais e idiossincrasias humanas.

A peça está na programação da Festa do Teatro, evento que ocorre entre 19 e 28 de junho, para promoção do acesso a programação teatral da cidade. Se quiser aproveitar, a  próxima distribuição de ingressos para a apresentação do dia 27 de junho será um dia antes, 26/06, das 11h às 15h, no Posto Teatro Municipal (Praça Ramos de Azevedo, S/N), e das 16h às 20h, no Posto Centro Cultural São Paulo (Avenida Vergueiro, 1000).

Agreste
Espaço Parlapatões – pça. Franklin Roosevelt, 158, República, região central, tel 3258-4449. 98 lugares. Sáb.: 19h.

apenasofimEnquanto os realizadores se estapeiam para ganhar um edital para produzir um filme, alguns jovens optaram por rifar uma garrafa de whisky. Com o saldo de aproximadamente 8 mil reais e apoio da faculdade e da produtora Mariza Leão, de Meu Nome Não é Johnny, nasceu Apenas o Fim. O estreante em longas-metragens por trás desta idéia é Mateus Souza, estudante de 20 anos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Tudo gira em torno da história de uma jovem que, cansada de tudo e de todos, inclusive de Antônio, seu namorado, decide fugir. Sua última hora antes de partir ela resolve passar com ele. Neste fim de relacionamento, eles relembram os bons momentos que passaram, criticam-se e fazem auto-críticas, enquanto Tom tenta convencê-la a desistir.

O filme já foi comparado às comédias de Woody Allen, aos dramas de Domingos de Oliveira e a Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Por-do-sol (2005), de Richard Linklater. A influência destes e de outros diretores como Bergman, Truffaut e do lema glauberiano “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” não passou à toa pelo jovem estudante de cinema, para a nossa sorte.

Apenas o Fim possui um argumento simples, foi filmado com tecnologia digital em aproximadamente 15 dias. A narrativa se passa em dois tempos. No passado, o casal aparece dentro de ambientes fechados, quartos e salas, nos quais têm diálogos intimistas, superficiais e clichês, por vezes, típicos de duas pessoas que querem se conhecer. A fotografia em preto e branco, os enquadramentos fechados e o posicionamento da câmera estática em plonggé, (de cima para baixo) contribuem para construir o clima. No presente, em cores, eles conversam enquanto passeiam pelos cantos da universidade, principal cenário da história. As transições entre estes dois momentos temporais lembram uma televisão fora de sintonia, remetendo ao estado espiritual dos dois personagens. Privilegiam-se planos longos, a câmera alternada, às vezes, leve e em movimento, outras vezes fixa, e a trilha sonora surge apenas como complemento, não para gerar emoção.

A simpatia do público se dá não apenas pelos temas contemporâneos da atual geração de jovens universitários. A situação representada é universal e comum a maioria dos casais de namorados. Além disso, é resultado do trabalho da convincente e realista atuação da dupla Érika Mader e Gregório Duvivier, que já trabalhou junta em Podecrer! (2007) e aceitou participar sem cobrar cachê.

Despretencioso e com orçamento baixíssimo – metade da renda veio do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ, o restante da tal rifa- o filme só chegou ao chamado grande circuito depois de ser promovido pela internet, por meio de blog, Twitter, Facebook, Myspace, Orkut, Youtube e um site. O longa, distribuído pelo Grupo Estação, já recebeu prêmio de melhor filme do Júri Popular no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo, além de ser selecionado para participar de festivais internacionais em Nova Iorque, Miami, Paris, Rotterdam, entre outros.

Quem acompanha as recentes produções nacionais sabe que o filme surpreende, pois distoa em forma, conteúdo, produção e distribuição, dos dramas sócio-econômicos e comédias românticas que avassalam as salas de cinema sem dar espaço para  filmes de indivíduos, sobre  sentimentos, coisas cotidianas e questões existenciais. Nós torcemos para que Apenas o Fim seja, com o perdão do trocadilho clichê e só para ficar no divertido climão dos diálogos do filme, apenas o começo.

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Na temporada de estréias nacionais deste mês está Coração Vagabundo (2008, Fernando Andrade), filme sobre o internacionalmente conhecido Caetano Veloso, e Um Homem de Moral (2009, Ricardo Dias) homenageia um dos maiores nomes da música paulistana, Paulo Vanzolini, autor de clássicos como Ronda. Ainda em cartaz, Ninguém Sabe o Duro que Dei (2008, Manoel, Micael Langer e Calvito Leal), retoma a história de Wilson Simonal, artista que agradou às massas, atingiu o sucesso como um foguete e que caiu tão rápido quanto ascendeu, devido ao seu suposto envolvimento com a ditadura militar. Impossível seria descrever esta tragetória sem colocar a polêmica em questão.

A recorrência do tema a partir da década de 90 demonstra, no mínimo, o interesse em trazer à tona, mais do que personagens, mas fatos importantes da história cultural do país: Vanzolini e a boemia paulistana; Caetano e o inovador movimento tropicalista; Titãs e o rock, em A Vida Parece Uma Festa (2009, Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves). A lista continua, já que as biografias do gênero já passaram por Nelson Cavaquinho (1969, Leon Hirszman), Nelson Freire (2003, João Moreira Salles), Paulinho da Viola- Meu Tempo é Hoje (2003, Izabel Jaguaribe), Vinicius (2005, Miguel Faria Jr.), Cartola: Música para os Olhos (2006, Lírio Ferreira e Hílton Lacerda), entre outros tantos.

Outra questão é que existe entre o realizador e o personagem objeto de análise, assim como entre o espectador e o artista, uma memória afetiva muito forte – independente de de ser fã ou não, pois a relevância social é muito maior do que a mera idolatria-. Quem não reconhece, por exemplo, a importância de Chico Buarque, Elis Regina, João Gilberto, entre outros tantos, mesmo sem gostar da música? Essas pessoas estão relacionadas a uma época, uma atitude, uma geração. Não se deve esquecer ainda a forte relação do brasileiro com a música de modo geral. De todas as artes, esta é a manifestação cultural que mais atrai adeptos verde-amarelos, sejam músicas nacionais, folclóricas, tradicionais ou populares, ou estrangeiras. Fato é que o Brasil vive de ritmos. Aliás, não só o Brasil, pois este “estilo” de documentário musical já é tão difundido internacionalmente que consta na filmografia de cineastas do porte de Godard e Scorsese, que levaram os Rolling Stones para as telas.

Chamar este filão de tendência pode ser exagerado. No entanto, este tema que poderia engessar a linguagem dessas produções se renova a cada lançamento, com uma nova experimentação. Ningúem Sabe o Duro que Dei e A Vida Parece Uma Festa optaram por uma reconstrução de seus personagens, baseada principlamente em documentos audiovisuais e entrevistas, preferindo uma edição mais televisiva, ou melhor, mais popular e apelativa a tal memória afetiva. O resultado é que você acaba, dentro da sala de cinema, cantando junto com os artistas da tela. Enquanto isso, Cartola: Música Para os Olhos, segue um rumo mais lúdico, carrega uma carga poética muito maior, na medida em que mistura realidade e ficção em uma edição bastante fragmentada, caótica e, portanto, menos clássica, para apresentar o contexto, os ambientes em que viveu o músico, utilizando como cobertura para os momentos em que não há registros da época fios de luz, linhas de trem e outros recursos. Tudo isso é resultado da mente de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, ambos por trás de Baile Perfumado (1996, Paulo Caldas e Lírio Ferreira) e Árido Movie (2006, Lírio Ferreira). Atualmente, Lírio está envolvido com outro documentário sobre música: O Homem Que Engarrafava Nuvens, sobre Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga. Já João Moreira Salles seguiu outro caminho, construindo Nelson Freire com uma estética tão erudita, límpida e harmoniosa quanto a excelência da obra do pianista.

A história não acaba por aqui. O recém estredo Cantoras do Rádio (2008, Gil Baroni) optou por trabalhar de forma coletiva e generalizada, se focando na chamada Era do Rádio e nas pessoas que contribuíram para sua existência. Na mesma linha está O Mistério do Samba (2008, Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor). Para o próximo semestre, também estão previstos o lançamento de Herbert de Perto (2006, Roberto Berliner e Pedro Bronz), sobre o “líder” de Paralamas do Sucesso, A Música Segundo Tom Jobim (2009, Nelson pereira dos Santos) e Loki: Arnaldo Baptista (2009, Paulo Henrique Fontenelle) (fonte: FilmeB). Bezerra da Silva, Nana Caymmi, Novos Baianos e Raul Seixas também serão destaques. Com a variedade e a qualidade de documentários musicais que já acumulamos daria para elaborar um grande festival apenas com esses filmes.

caramelo03Água, limão e açúcar. São estes os ingredientes necessários para se fazer caramelo. Ou quase isso. Para Caramelo, incluem-se na lista uma pitada de Beirute e uma boa dose de mulheres. A receita é da estreante em longas-metragens Nadine Labaki, libanesa nascida em 1974. O filme conta a história de quatro mulheres que convivem no dia-a-dia em um salão de beleza de Beirute. Layale, representada pela própria Nadine, é a proprietária do local, tem um caso com um homem casado, que esconde dos pais, com quem mora. Já Nisrine, é de origem muçulmana, e embora não siga os padrões culturais e estéticos desta religião, teme o dia em que vai se casar. Rima também trabalha lá, adora ouvir música, é tímida, discreta e sente atração por mulheres. Completando o time, Jamale é uma freguesa assídua que precisa estar sempre perfeitamente penteada e maquiada para os infindáveis testes para comerciais que participa. Este é, basicamente, o microcosmo que compõe o núcleo da história. Em torno disso, agregam-se Rose, uma costureira que abriu mão de tudo para cuidar da irmã mais velha, Rimi; um policial; um marido, sua mulher e sua filha, entre outros personagens secundários, tratados com muito carinho e sem os quais esta representação da cultura oriental seria menos rica.

Muitas destas pequenas histórias giram em torno das aparências. Cada personagem, da sua forma, precisa de uma máscara, para se mostrar ao mundo e para enxergar a si mesma. Por isso, a escolha pelo salão de beleza, já que este é o lugar das aparências por excelência. Além disso, entre as mulheres que realmente frequentam um cabelereiro com certa assiduidade, gera-se uma relação de amizade e confiança entre atendente e cliente. Ao mesmo tempo, como ressalta Nadine, há um universo de mistério que cobre este local pouco conhecido dos homens.

Esto é outro fio que encaminha a história. Aos poucos, o espectador vai notar uma presença masculina bastante ambígua: ao mesmo tempo em que na vida daquelas mulheres quase sempre existem sombras de homens, eles não existem de fato. Principalmente porque todas elas são mulheres fortes, têm uma atitude ativa perante a vida, lutam pelos seus direitos e suas vontades. Enquanto isso, os homens são praticamente inexistentes, como é o caso do amante de Layale, que não aparece nunca, ou são representados como espíritos infantis ou românticos utópicos, a exemplo do noivo de Nisrine e do policial apaixonado por uma das personagens. Contraditória também são as mulheres, que apesar de buscarem suas identidades nas aparências, no conflito entre oriente e ocidente, entre juventude e envelhecimento, realização pessoal ou da família, entre outras duplicidades, toda essas belíssimas personagens- pois além de complexas, elas são lindas- passam longe da superficialidade.

Tudo no filme é bastante delicado e sutil, desde o possível envolvimento amoroso de Rima com uma cliente, até a necessidade de Jamale de não envelhecer. O clima é bastante ameno e tem tons de comédia e drama para discutir valores culturais e individuais, passando por casamento, adultério, sexualidade, maternidade, religiosidade e, principalmente, maturidade. Muito engenhosamente utiliza-se desde a primeira cena a metáfora do caramelo (utilizado no Líbano como uma pasta depilatória) para falar da condição da mulher, mostrando o suave e a dor da depilação, o lado doce e o amargo da vida*.

Nesta co-produção franco-libanesa a diretora optou por trabalhar com não-atrizes, por considerar que elas podem expressar tantas coisas interessantes quanto uma profissional. A trilha sonora é daquelas que se fazem presentes, combinando elementos da música oriental e ocidental, e foi composta pelo músico e marido de Nadine, Khaled Mouzanar. O filme, lançado em Cannes, já ganhou vários prêmios, entre eles o Sebastiane no Festival Internacional de Cinema de San Sebastian, na Espanha, e foi o representante libanês para o Oscar de filme estrangeiro. Caramelo é feminino, sem necessariamente ser um filme para mulheres.

*(créditos desta construção para minha mãe)

hitchcockPara terminar esta série de dicas com chave de ouro, remeto você, caro leitor a uma das maiores pérolas que já ouvi falar. Você conhece o livro “Hitchcock/Truffaut”, publicado originalmente em 1967 e editado aqui pela Companhia das Letras? Nele, o diretor de obras-primas da nouvelle-vague faz uma série de entrevistas com o grande cineasta do suspense. Agora, estas entrevistas estão na rede em formato de áudio. São 25 arquivos, com 25 a 27 minutos, totalizando 11 horas de conversa. O livro e os arquivos são uma verdadeira obra-prima de mestre para mestre. Achou ótimo? Prepare-se para o porém: assim como o site do Kurosawa, você precisa ser fluente em língua estrangeira, neste caso, no inglês, para acompanhar o bate-papo. Na falta de conhecimentos linguísticos sugiro correr para a livraria mais próxima. De qualquer forma, a lista com os links está aqui:

Parte 1: infância, teatro e o primeiro cinema
Parte 2: o star system, “Suspeita” e “The Lodger”
Parte 3: “Juno and the Paycock” e sobreviver em Hollywood
Parte 4: fracassos iniciais e a importância de Michael Balcon
Parte 5: “Os 39 Degraus”
Parte 6: “O Agente Secreto”
Parte 7: “Young and Innocent” e “A Dama Oculta”
Parte 8: O cinema britânico
Parte 9: “Rebecca, a Mulher Inesquecível”
Parte 10: “Correspondente Estrangeiro”
Parte 11: “Um Casal do Barulho”
Parte 12: “Sabotador” e “A Sombra de uma Dúvida”
Parte 13: “Um Barco e Nove Destinos” e “Quando Fala o Coração”
Parte 14: “Interlúdio” e “Agonia de Amor”
Parte 15: “Festim Diabólico”
Parte 16: “Sob o Signo de Capricórnio”
Parte 17: “Pacto Sinistro”
Parte 18: “A Tortura do Silêncio”
Parte 19: técnicas de cinema
Parte 20: “Janela Indiscreta”
Parte 21: “Um Corpo Que Cai”
Parte 22: “Intriga Internacional”
Parte 23: “Psicose”
Parte 24: “Os Pássaros”
Parte 25: “Marnie, Confissões de uma Ladra” e “Cortina Rasgada”

Picture 2Continuando a saga de dicas, falo hoje sobre o The Auteurs. Trata-se de uma iniciativa que começou em 2007 e foi lançada no final do ano passado, nos Estados Unidos. O site é o resultado de uma parceria entre a The World Cinema Foundation (WCF), presidida por Martin Scorsese e o produtor da agência Efe, Eduardo Costantini.

O objetivo é criar uma comunidade de cinéfilos e, ao mesmo tempo, privilegiar as produções de jovens diretores. O site funciona aos moldes do Orkut, MovieMobz e afins. Você cria o seu perfil, com base nos seus longas e diretores preferidos e pode acessar filmes online. Alguns são de graça, outros você precisa topar pagar pela exibição. A qualidade da imagem é excelente e o player funciona muito bem. The Auteurs também tem uma ficha técnica dos filmes, mesmo dos que não estão disponíveis no site. A navegação é simples, mas aviso aos não-poliglotas: o site está em inglês. Hoje existem 200 filmes online e 80 mil usuários ativos.

A iniciativa me parece bastante louvável. Quem dera todos os novos diretores pudessem exibir seus trabalhos. Quem sabe algum investidor brasileiro não compra a idéia e faz algo semelhante no Brasil? Já foi divulgado pelo próprio produtor que haverá, futuramente, acordos com companhias da Espanha, Portugal e América Latina. Nós, cinéfilos inveterados, ficaremos a espera.

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